A disparidade entre a Economia e o Mercado Bolsista

Se nos últimos tempos tem seguido os mercados financeiros, provavelmente observou um facto particular. O facto de que apesar da economia mundial ter mostrado sinais de recessão de uma forma geral, os mercados financeiros, em particular o mercado accionista, não o fizeram. Antes pelo contrário, mostraram uma recuperação extremamente rápida, e até atingiram máximos históricos.

Quem nos últimos tempos tem seguido os mercados financeiros, muito provavelmente se deu conta de uma tendência curiosa. Apesar da economia mundial ter mostrado sinais de recessão, os mercados financeiros, nomeadamente o mercado accionista, não seguem a mesma tendência. Em sentido contrário, mostram até uma recuperação extremamente rápida chegando a atingir máximos históricos nos valores dos seus índices.

E perguntam-se o porquê de isto acontecer? A principal razão é o simples facto da economia e o mercado accionista não serem a mesma coisa. A saúde de uma economia é medida através de dados de um país ou região como um todo, dados como desemprego, exportações, consumo, produção e a respectiva evolução destes factores. Por outro lado, o mercado accionista é onde são transaccionadas acções de empresas, e é medido através de índices, que tem em conta certo tipo de empresas, que são divididas por sector ou tamanho, índices esses que mostram a média do valor agregado conforme a sua subida ou descida.

O ponto essencial para a compreensão destas diferentes tendências é a noção de que estamos perante dois termos que, apesar de extremamente interligados são conceitos bastante diferenciáveis.

Três grandes diferenças a considerar

  • Ecossistemas distintos – O pulso de uma economia pode ser medida através de dados de um país ou região como um todo. Os indicadores podem ser taxas como desemprego, exportações, consumo, produção e a respectiva evolução destas taxas. Por outro lado, para ter uma noção da direcção do mercado accionista, ambiente onde são transaccionadas acções de empresas, podemos fazê-lo através de índices. Os índices são compostos por empresas, que por sua vez podem ser agrupadas por tamanho ou sector. Estes índices representam a média do valor agregado das empresas, conforme a sua subida ou descida na bolsa. Assim sendo, ao aferirmos que o conhecido Índice S&P500, que representa as 500 maiores empresas americanas, está em máximos históricos não podemos assumir que representa a economia do país. Apenas representa a “saúde” média das empresas que compõem o índice. É errado associar esse valor a uma melhoria ou deterioração da economia, porque apenas representa aquele conjunto de empresas. No entanto, a economia não se restringiria apenas a certos sectores ou empresas, iria englobar todas as empresas, comércios, famílias e trabalhadores do país.
  • Períodos de tempo diferentes – Enquanto que a economia é analisada com base em dados do passado, os dados homólogos para os indicadores como taxas de exportação, emprego ou inflação, as acções são avaliadas conforme as expectativas dos investidores sobre os possíveis ganhos futuros. Portanto a Economia como um conceito medido através de comparações com o passado, e o Mercado Accionista como um conceito baseado na análise de previsões da performance futura.
  • O impacto das empresas – Considerando os pontos anteriores facilmente conseguimos consentir que o peso das empresas influencia de forma diferente estes dois conceitos de economia e mercado accionista. Se por Economia entendemos a globalidade de valores referentes ao PIB, produção, consumo, serviços, e por mercado accionista assumimos apenas ser o composto de empresas, consequentemente, a oscilação do valor de uma empresa vai ter um impacto mais significativo no mercado accionista do que na Economia, que no fundo é composta pelo mercado accionista, mas não só. Os maiores impulsionadores dos índices têm sido empresas tecnológicas como o Facebook, Netflix e Amazon que têm apresentado bons resultados graças ao contexto pandémico que motiva a sua utilização, tal como as empresas vocacionadas para o E-commerce. Este pequeno grupo de empresas, ao destacar-se de forma notória em relação aos seus pares, auxiliou a escalada dos valores dos índices para valores históricos. 

Conclusão

A Economia e o Mercado Accionista são entidades extremamente complexas e interligadas, portanto não é surpreendente que uma influencie a outra, e que a longo termo se dirijam no mesmo sentido. Sob ponto de vista de uma análise ao contexto actual, dado que estamos perante um foco de crise, as suas tendências são diferentes porque os seus domínios também o são.
À economia dá-se um âmbito macro no sentido em que cabe a análise através da comparação de dados globais e passados com os dados presentes, ao Mercado Accionista reduz-se o âmbito para a comparação de valores de índices sobre a previsão das expectativas futuras.

Tendo em conta o que se vive hoje podemos pensar na relação entre as expectativas positivas sobre a vacinação em massa e o alcance da imunidade, que tem feito os valores das acções reflectir fortes desempenhos no mercado accionista, face a uma economia mundial que se depara com graves problemas com os comércios em crise, taxas de desemprego altas e inquestionáveis perdas na recuperação de créditos.

Dito isto, começa-se a perceber o porque da divergência entre a economia e o mercado accionista.

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