Arábia Saudita, Política – 23 Jan 26

Arábia Saudita: “défice por desenho”, recalibração do Vision 2030 e reabertura financeira num eixo EUA–Riad cada vez mais transacional


Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Arábia Saudita. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta economia e mundo com as políticas, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.


Strategic Highlights – 06 Janeiro 2026

  • A Arábia Saudita aprovou o Orçamento de 2026 com um défice projetado de 165 mil milhões de riais (44 mil milhões USD), equivalente a ~3,3% do PIB, abaixo do défice estimado para 2025 de 245 mil milhões de riais.
  • O governo assume um “défice por desenho” até 2028, ancorado na convicção de que o nível de dívida ainda cria margem, mas com vulnerabilidade explícita a nova queda do preço do petróleo.
  • O Vision 2030 entra em 2026 numa “terceira fase”, com foco em execução e maximização de impacto, e com o PIF a deslocar prioridades de megaprojetos imobiliários para logística, minerais, IA e turismo religioso.
  • A partir de 1 fevereiro 2026, o regulador vai abrir o mercado financeiro a todos os investidores estrangeiros, eliminando o conceito de Qualified Foreign Investor, reforçando a estratégia de atração de capital e melhoria de liquidez.
  • O eixo com os EUA intensificou-se em novembro de 2025, com anúncios de 270 mil milhões USD em acordos e promessas de investimento saudita nos EUA até 1 bilião USD (com pressão para 1,5 biliões USD), além do avanço político-militar em torno de uma potencial venda de até 48 F-35.

Nota de Contexto

A Arábia Saudita está a tentar redesenhar o seu modelo económico através do Vision 2030, reduzindo dependência do petróleo via investimento público maciço, diversificação setorial e reformas de mercado. Este processo assenta em três pilares: (i) capacidade fiscal (receitas petrolíferas e dívida), (ii) PIF como instrumento de investimento e execução, e (iii) captação de capital externo (investimento direto e portefólio). Em paralelo, a relação com os EUA ganha contornos cada vez mais “transactional”, combinando defesa, energia, tecnologia e fluxos de investimento, com riscos reputacionais e políticos associados.

1) Orçamento 2026: consolidação parcial, mas com “défice por desenho”

O Orçamento aprovado a 2 dezembro 2025 desenha uma trajetória de défice que, embora menor do que em 2025, é explicitamente assumida como escolha estratégica. O governo projeta:

  • Défice 2026: 165 mil milhões de riais (44 mil milhões USD), ~3,3% do PIB.
  • Défice estimado 2025: 245 mil milhões de riais, impulsionado por preços/produção de petróleo mais baixos e por despesa acima do orçamentado em cerca de 4%.

Do lado do envelope orçamental:

  • Despesa 2026: 1,31 biliões de riais, abaixo dos 1,34 biliões estimados para 2025.
  • Receita 2026: 1,15 biliões de riais, ligeiramente acima dos 1,1 biliões estimados para 2025.

A mensagem mais importante é qualitativa e política: o ministro das Finanças, Mohammed Al Jadaan, define que o défice não é “deriva”, é arquitetura: “deficit by design” até 2028. O racional implícito é que o Estado quer preservar capacidade de investimento e transição estrutural, mesmo aceitando desequilíbrios temporários.

O que isto significa para a leitura de risco

Há duas camadas no texto:

  1. Capacidade – a dívida pública ainda é apresentada como relativamente contida:
  • Dívida pública fim-2025: ~1,5 biliões de riais, ~31,7% do PIB, acima de 1,2 biliões de riais em 2024.
  1. Vulnerabilidade – o próprio artigo explicita que o espaço fiscal “existe”, mas é sensível ao petróleo. Uma economista (ADCB) ressalva que a margem é real, mas “vulnerável a nova queda do preço do petróleo”.

O quadro resultante é de consolidação parcial (défice menor) combinada com continuidade de expansão dirigida (“por desenho”), o que coloca o risco orçamental menos na métrica do défice em si e mais no binómio preço do petróleo / qualidade do investimento.

2) Vision 2030: 2026 como inflexão para execução e “recalibração”

A leitura estratégica do orçamento é que o país está a meio do caminho e muda de etapa: 2026 marca o início de uma “terceira fase” do Vision 2030, com foco em maximizar impacto e acelerar resultados, em vez de apenas “lançar” reformas. O príncipe herdeiro descreve esta etapa como “acelerar o ritmo de progresso e aumentar oportunidades de crescimento” para criar impacto sustentável para lá de 2030.

Reorientação do PIF e mudança de mix setorial

O texto sugere que a transição está a entrar numa fase mais pragmática:

  • O PIF (cerca de 925 mil milhões USD, no artigo) está a desviar foco de megaprojetos imobiliários com atrasos para setores como logística, minerais, inteligência artificial e turismo religioso.
  • O ministro das Finanças resume a mudança: “não é quanto gastamos, é no que gastamos”.

Há um detalhe que funciona como “sinal de regime”: o orçamento de 2026 não menciona explicitamente alguns megaprojetos emblemáticos (ex.: NEOM ou Sindalah), ao contrário do enquadramento anterior. Isto não prova abandono, mas sugere priorização e seleção, coerente com a narrativa de “recalibrar para garantir entrega”.

Turismo religioso como KPI explícito

Mesmo com poucos alvos quantitativos, um objetivo surge de forma clara:

  • Meta de >20 milhões de visitantes internacionais para a Umrah em 2026, vs. 15 milhões esperados em 2025.

Isto é relevante porque combina três objetivos: receita não petrolífera, serviços e reputação e serve como indicador de que a diversificação está a procurar resultados mensuráveis.

3) Abertura financeira em 2026: remover fricções para captar capital externo

A 6 janeiro 2026, o regulador anuncia uma mudança estrutural: a partir de 1 fevereiro 2026, o mercado saudita passa a estar aberto a todos os investidores estrangeiros, eliminando a figura do Qualified Foreign Investor. O argumento oficial é aumento de inflows e melhoria de liquidez.

Por que isto importa, mesmo que o impacto seja “limitado”

O próprio texto inclui uma leitura crítica: a JP Morgan considera que o impacto pode ser limitado porque “quase todos” os investidores institucionais relevantes já conseguiam aceder. Ainda assim, do ponto de vista estratégico, a medida importa por três razões:

  1. Sinalização – reforça a intenção de reduzir barreiras e normalizar o mercado saudita para padrões globais.
  2. Sequência regulatória – recoloca o foco no “próximo passo” que o mercado espera: alteração de limites de propriedade estrangeira (referência a um teto de 49% e expectativa de mudança apenas no 2.º semestre ou mais tarde).
  3. Contexto de performance – a urgência de reanimar interesse também aparece nos números do mercado: o índice saudita caiu 12,8% em 2025 e estava -1,9% no início de 2026 (à data da notícia).

Como “stock” de capital estrangeiro, o artigo quantifica:

  • Participação de investidores internacionais: 590 mil milhões de riais (157 mil milhões USD) no fim do 3.º trimestre do ano anterior.

4) Eixo EUA–Arábia Saudita: investimento, tecnologia e defesa como pacote único

Os textos de novembro desenham uma relação em aceleração e com dois motores: dinheiro (investimento e contratos) e segurança (defesa).

4.1 Investimento e tecnologia: números grandes, execução incerta

A 19 novembro 2025, num fórum de investimento, são destacados:

  • Promessa do príncipe herdeiro de elevar investimento saudita nos EUA para 1 bilião USD, vs. compromisso anterior de 600 mil milhões USD (sem detalhe/timing).
  • Trump pressiona publicamente para 1,5 biliões USD.
  • Anúncio de 270 mil milhões USD em acordos e vendas entre dezenas de empresas.

Há granularidade relevante:

  • HUMAIN (empresa saudita de IA) planeia compras de 600.000 chips de IA da Nvidia.
  • HUMAIN e a xAI (Elon Musk) desenvolverão data centers na Arábia Saudita, incluindo uma instalação de 500 megawatts.
  • MP Materials planeia refinaria de terras raras na Arábia Saudita com o DoD dos EUA e a Maaden.
  • A Aramco assinou 17 memorandos com empresas americanas, com valor potencial de >30 mil milhões USD.

O mesmo texto introduz a tensão central: prometer volumes de investimento desta escala compete com despesas domésticas elevadas em megaprojetos, alguns com derrapagens e atrasos.

4.2 Defesa (F-35): salto estratégico com risco político

Em 4 novembro 2025, surge a notícia de que o pedido saudita para comprar até 48 F-35 avançou no processo do Pentágono, um potencial “shift” político, porque toca diretamente na doutrina americana de preservar a “qualitative military edge” de Israel.

Em 17 novembro 2025, Trump afirma publicamente: “we’ll be selling the F-35s”, embora com a ressalva de que ainda haveria discussão e decisão formal após conversa com o príncipe herdeiro.

Do ponto de vista de risco, os próprios artigos sublinham travões possíveis: escrutínio do Congresso e o precedente Khashoggi continuam a ser pontos de fricção no sistema político dos EUA.

5) Direitos humanos e “reputational risk”: custo implícito da abordagem transacional

A peça de 20 novembro 2025 enquadra a visita e a defesa pública de MBS por Trump como sinal de mudança estrutural: menor centralidade de direitos humanos na política externa dos EUA, maior peso de uma lógica de “America First” e deal-making. Isto reforça o espaço político para aprofundar relações com Riad, mas também eleva o risco de volatilidade reputacional e de reação política interna (EUA), consoante eventos.

Cronologia estruturada (datas e temas)

  • 04 novembro 2025 (Defesa): pedido saudita para até 48 F-35 avança no Pentágono; debate sobre equilíbrio regional e “qualitative military edge”.
  • 17 novembro 2025 (Política/Defesa): Trump diz que planeia aprovar venda de F-35; ainda sem decisão final formal.
  • 19 novembro 2025 (Investimento/Tech): fórum EUA–Arábia Saudita: 270 mil milhões USD em acordos; promessa de investimento até 1 bilião USD; pressão para 1,5 biliões USD; chips de IA e data centers.
  • 20 novembro 2025 (Risco político): enquadramento de mudança na política de direitos humanos sob Trump, com reabilitação pública de MBS.
  • 02 dezembro 2025 (Fiscal/Vision 2030): Orçamento 2026: défice 165 mil milhões riais, “terceira fase” do Vision 2030, reorientação do PIF e meta de >20 milhões de peregrinos Umrah.
  • 06 janeiro 2026 (Mercados financeiros): abertura do mercado a todos os investidores estrangeiros a partir de 1 fevereiro; foco passa para limites de propriedade.

Conclusão

Com foco estrito na Arábia Saudita, o conjunto de documentos mostra um país a tentar compatibilizar três objetivos que nem sempre são alinhados no curto prazo: (i) manter um ritmo elevado de investimento para acelerar o Vision 2030, (ii) preservar credibilidade fiscal num cenário de petróleo menos favorável e (iii) captar capital estrangeiro com reformas de mercado e maior abertura.

O Orçamento de 2026 cristaliza a estratégia: défice menor, mas assumido (“por desenho”), e uma mudança de ênfase para entregar (recalibrar projetos) mais do que anunciar megavisões. Ao mesmo tempo, a abertura do mercado a estrangeiros a partir de fevereiro de 2026 é um passo de fricção regulatória mais baixa, ainda que o “true catalyst” de mercado pareça ser a eventual revisão de limites de propriedade estrangeira.

Em paralelo, o eixo EUA–Riad evolui para um pacote integrado onde defesa, IA, minerais críticos e investimento se reforçam mutuamente. Isso amplia o “upside” estratégico (capital, tecnologia, segurança), mas traz consigo dois riscos que não desaparecem: (1) execução financeira (promessas muito grandes vs. necessidades domésticas) e (2) risco político/reputacional associado ao enquadramento de direitos humanos e ao escrutínio institucional nos EUA.


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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.

(Artigo sobre a Arábia Saudita, formato “Geral”, atualizado com informações até 06 de Janeiro de 2026. Categoria: Política. Tags: Geopolítica, Política, Arábia Saudita)

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