BTC e o M2, News – 26 Dez 25

M2, Taxas de Juro e Bitcoin: porque as narrativas das redes sociais falham


Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a BTC e a suposta relação com M2 (Money Supply). Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.


Strategic Highlights – 26 dezembro 2025

  • O M2 mede o stock de moeda ampla no sistema, mas não mede liquidez marginal disponível para ativos de risco como criptomoedas.
  • Num regime de taxas de juro elevadas, o significado do M2 altera-se estruturalmente, refletindo sobretudo poupança remunerada, não excesso de liquidez.
  • A criação de crédito é o principal motor dos ciclos de risco; o M2 pode manter-se elevado enquanto a liquidez marginal abranda.
  • Comparações com Global M2 são metodologicamente frágeis, sobretudo pela inclusão de economias com controlo de capitais, como a China.
  • Movimentos relevantes no mercado cripto, como em 2024, foram impulsionados por expectativas e catalisadores específicos, e não por expansão monetária estrutural.

Nota de Contexto

O M2 tornou-se, nos últimos anos, uma das métricas macroeconómicas mais utilizadas em narrativas pró-cripto nas redes sociais. Gráficos simples, muitas vezes acompanhados por atrasos artificiais (“lags”), sugerem que a expansão do M2 antecipa automaticamente subidas do Bitcoin e do mercado cripto. Esta leitura ganhou tração num período histórico específico, marcado por políticas monetárias extremamente acomodatícias. O problema é que ignora como a liquidez funciona num contexto macroeconómico diferente, caracterizado por inflação persistente, taxas de juro elevadas e maior restrição financeira.

O que o M2 mede, e porque é frequentemente mal interpretado

O M2 agrega numerário em circulação e, sobretudo, depósitos bancários. Trata-se de um indicador útil para observar tendências monetárias de fundo, mas existe um erro conceptual recorrente: assumir que o M2 representa dinheiro disponível para investimento em mercados financeiros.

Na prática, o M2 é um stock acumulado, enquanto os preços dos ativos são determinados por fluxos marginais. Um aumento do M2 pode refletir maior poupança, desalavancagem ou comportamento defensivo, sem que exista qualquer rotação efetiva para ativos de risco. Confundir quantidade de moeda existente com liquidez financeira ativa está na base de grande parte das narrativas simplistas que circulam online.

Taxas de juro elevadas e a mudança estrutural do significado do M2

Fonte: Rafael Pereiro Holding – Research Team

O contexto das taxas de juro é determinante para interpretar o M2. Num regime de taxas baixas, depósitos oferecem pouco rendimento e o incentivo à procura de alternativas de maior risco aumenta. Num regime de taxas elevadas, o mecanismo inverte-se.

Com taxas de juro altas:

  • os depósitos passam a oferecer rendimento atrativo;
  • o custo de oportunidade de ativos sem yield, como as criptomoedas, aumenta;
  • o apetite por risco tende a diminuir.

Neste enquadramento, um nível elevado de M2 deixa de sinalizar excesso de liquidez e passa a refletir comportamento defensivo. O cruzamento entre M2 e taxa diretora ilustra esta dissociação: o stock monetário pode manter-se elevado enquanto a política monetária permanece claramente restritiva.

Stock monetário vs liquidez marginal: o papel central do crédito

Fonte: Rafael Pereiro Holding – Research Team

Para compreender os ciclos de risco, é fundamental distinguir entre stock monetário e liquidez marginal. O M2 mede o primeiro, o crédito mede o segundo.

A criação de crédito está diretamente ligada à capacidade de alavancagem, ao financiamento de novas posições e à expansão efetiva da liquidez disponível para assumir risco. Quando o crescimento do crédito abranda ou contrai, a liquidez marginal diminui, mesmo que o M2 permaneça estável.

É por isso que os grandes ciclos de valorização em ativos de risco, incluindo criptomoedas, estão historicamente associados a períodos de crédito barato e abundante, e não simplesmente a níveis elevados de moeda em circulação.

O mito do “Global M2” e a distorção chinesa

Uma das variantes mais populares destas narrativas é o chamado Global M2, obtido pela soma dos agregados monetários de várias economias. O pressuposto implícito é que toda a criação monetária é fungível e pode, em última instância, alimentar os mesmos mercados.

Este pressuposto falha, sobretudo no caso da China. A economia chinesa opera com controlos de capitais estruturais, forte direcionamento doméstico do crédito e limitada transmissão da criação monetária para mercados financeiros globais. Na prática, grande parte do M2 chinês permanece confinada ao sistema interno.

A sua inclusão em métricas globais cria uma ilusão de liquidez internacional que não se traduz em maior capacidade marginal de compra de ativos como criptomoedas.

Criptomoedas: o que realmente move o mercado

Fonte: Rafael Pereiro Holding – Research Team

A observação do comportamento do Bitcoin face ao M2, sem ajustes artificiais, mostra que a relação não é estável ao longo do tempo. Em determinados períodos, ambos sobem em simultâneo; noutros, a correlação desaparece ou inverte-se.

O mercado cripto reage sobretudo a:

  • custo do capital e taxas reais;
  • condições financeiras globais;
  • disponibilidade de crédito e funding;
  • apetite por risco e volatilidade.

O M2 pode fornecer contexto macroeconómico, mas não funciona como sinal preditivo isolado.

Expectativas, narrativa e catalisadores específicos: o caso de 2024

Parte relevante das subidas observadas em 2024 ocorreu num contexto dominado por catalisadores específicos, e não por uma expansão estrutural da liquidez monetária. Em particular, destacaram-se dois fatores: a crescente retórica em torno da aprovação de ETFs spot sobre criptomoedas e a expectativa de uma alteração no enquadramento político e regulatório nos Estados Unidos associada ao regresso de Donald Trump ao centro do debate eleitoral.

Estes elementos não representam liquidez no sentido estrito, mas sim expectativas de fluxos futuros, melhoria de sentimento e reposicionamento antecipatório por parte dos investidores. A valorização resultante refletiu sobretudo narrativa, confiança e perceção de assimetria positiva, ocorrendo num contexto em que as condições financeiras globais permaneciam longe de um regime verdadeiramente acomodatício.

Este episódio ilustra de forma clara porque é enganador atribuir movimentos de preço em cripto a métricas como o M2: em vários momentos do ciclo, o mercado reage primeiro a histórias plausíveis e catalisadores identificáveis, muito antes de qualquer alteração mensurável nos agregados monetários.

Porque estas narrativas prosperam nas redes sociais

As narrativas baseadas no M2 prosperam porque oferecem explicações simples para fenómenos complexos. Gráficos visualmente convincentes, combinados com “lags” ajustados a posteriori, criam a sensação de inevitabilidade. O problema é que raramente explicam o mecanismo económico subjacente e ignoram mudanças estruturais no regime macroeconómico.

Conclusão

O M2 é um indicador macroeconómico relevante, mas o seu uso como argumento automático bullish para criptomoedas é profundamente enganador. Num regime caracterizado por taxas de juro elevadas e crédito restritivo, um M2 alto não implica liquidez abundante nem garante fluxos para ativos de risco.

Em última análise, o mercado cripto não reage ao stock de moeda existente, mas ao preço do risco, isto é, ao custo do capital, às condições financeiras e à disponibilidade de crédito. Ignorar esta distinção é trocar análise por narrativa.


Visite o Disclaimer para mais informações.

Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.

(Artigo sobre Bitcoin (BTC) e o M2 (Money Supply), formato “News”, atualizado com informações até 26 de Dezembro de 2025. Categorias: Blockchain. Classe de Ativos: Criptomoedas. Tags: BTC, Bitcoin, BTCUSD, Cripto)

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