Canadá, Economia – 29 Jan 26

Canadá: sinais de estabilização pontual, mas a economia entra em 2026 entre contração “survey”, consumo cauteloso e o peso persistente da guerra comercial


Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Economia do Canadá. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos da atividade económica mais relevantes que impactam esta economia e mundo, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.


Strategic Highlights – 07 Janeiro 2026

  • O PIB do Canadá caiu 0,3% em outubro (maior queda em quase 3 anos), com recuperação parcial estimada de +0,1% em novembro, sugerindo um final de ano frágil e dependente de normalização após choques pontuais.
  • A atividade medida por inquéritos permanece pressionada: o PMI de serviços (S&P Global) ficou em 46,5 em dezembro (contração), com quarto corte mensal consecutivo do emprego no setor, enquanto o PMI industrial registou o 11.º mês seguido abaixo de 50 (48,6).
  • Em contraste, o mercado de trabalho surpreendeu: o desemprego caiu para 6,5% em novembro (mínimo de 16 meses) e o emprego aumentou 53.600, apoiado por +63.000 empregos a tempo parcial, com salários a +4%.
  • A inflação manteve-se contida: o CPI ficou em 2,2% em novembro, com core (median/trim) a 2,8%, embora alimentação tenha acelerado para +4,2% e a dinâmica de tarifas continue a contaminar alguns preços.
  • A habitação continua em “holding pattern”: vendas nacionais -0,6% m/m em novembro e, em Toronto, as vendas caíram pelo 3.º mês consecutivo em dezembro, com preços em descida e compradores à espera de maior confiança na economia e no emprego.

Nota de Contexto

A economia canadiana está particularmente exposta ao ciclo dos EUA, quer via comércio (cadeias industriais e energia), quer via confiança empresarial. Em 2025, a combinação de tarifas norte-americanas, incerteza sobre o enquadramento do USMCA (em revisão em 2026) e um arrefecimento do mercado imobiliário criou um regime de crescimento baixo e sentimento instável. Ao mesmo tempo, a política monetária tornou-se significativamente mais acomodatícia, com o Banco do Canadá a fixar a taxa diretora em 2,25%, tentando sustentar a procura sem reacender a inflação.

Atividade real: queda forte em outubro e “normalização” incompleta

O dado mais importante do lado “hard” foi a contração do PIB em outubro (-0,3% m/m), a maior desde dezembro de 2022, num retrato de economia a perder tração no 4.º trimestre. A quebra foi generalizada: bens -0,7% e serviços -0,2%.

A estimativa preliminar de +0,1% em novembro aponta para um ressalto parcial, mas não muda a mensagem principal: a economia entrou no fim do ano com pouca inércia, e com choques específicos a amplificar a volatilidade (incluindo paragens laborais e impacto adicional de tarifas em alguns segmentos).

Este pano de fundo é consistente com a própria leitura do Banco do Canadá, que sinalizou crescimento fraco no 4.º trimestre, e com análises que sublinham risco de fraqueza a prolongar-se para o 1.º semestre de 2026.

Inquéritos (PMIs): divergência entre “macro oficial” e clima empresarial

Os inquéritos de atividade continuam a sugerir uma economia mais fraca do que os dados oficiais de emprego poderiam indicar.

Serviços

O PMI de serviços (S&P Global) subiu para 46,5 em dezembro (de 44,3), mas manteve-se em contração. O destaque mais preocupante é a persistência de fragilidade na procura: o indicador de novos negócios registou o 13.º mês consecutivo abaixo de 50, e o emprego no setor voltou a cair (embora com ligeira melhoria do subíndice para 47,7).

A narrativa associada é direta: incerteza comercial e relutância dos clientes em gastar, num ambiente onde as empresas tentam operar “lean”.

Setor industrial

No PMI industrial, a contração prolongou-se pelo 11.º mês com o índice em 48,6. A produção caiu (subíndice 47,8) e as novas encomendas recuaram para 47,3 (mínimo de 3 meses). Ao mesmo tempo, os preços voltaram a ser um tema: custos de inputs 56,9 e preços de output 54,7 (máximo desde junho), refletindo tentativa de repercutir custos num contexto em que tarifas continuam a pesar nas cadeias de fornecimento.

Ivey PMI: sinal mais construtivo em dezembro

O Ivey PMI ilustra a volatilidade do “agora”: depois de 48,4 em novembro (contração), subiu para 51,9 em dezembro, com o emprego a acelerar para 53,0 (máximo desde fevereiro). A mensagem aqui é que existe capacidade de recuperação pontual, mas o padrão ainda não é suficientemente robusto para falar numa inversão sustentada.

Mercado de trabalho: melhora visível, mas com qualidade mista

O mercado de trabalho surpreendeu positivamente em novembro:

  • Desemprego: 6,5% (queda de 0,4 p.p.; mínimo de 16 meses)
  • Emprego: +53.600
  • Emprego a tempo parcial: +63.000 (com destaque para saúde e apoio social)
  • Salários (trabalhadores permanentes): +4% (estável)

Há, porém, duas leituras simultâneas:

  1. A queda do desemprego melhora o “piso” de confiança e reduz pressão imediata para mais cortes de juros.
  2. A qualidade do emprego é menos linear: o ganho veio muito de tempo parcial e houve referência a uma redução da força de trabalho associada a restrições de imigração, o que também influencia a taxa de desemprego.

Inflação: estável no headline, mas com fricções no cabaz

O CPI de novembro ficou em 2,2% (inalterado), com inflação mensal de 0,1%. O que muda a leitura é a composição:

  • Alimentação: +4,2% a/a (máximo desde dezembro de 2023)
    • Mercearia: +4,7%
    • Restaurantes: +3,3%
  • Gasolina: -7,8% a/a (continua a “amortecer” o headline)
  • Core do Banco do Canadá: CPI-median 2,8%, CPI-trim 2,8% (primeira vez desde março abaixo de 3%)

O retrato é o de inflação controlada, mas com uma tensão específica: comida e alguns efeitos indiretos de tarifas. Para a política monetária, isto reduz o risco de “stagflation” explícita, mas mantém o banco central atento à persistência de componentes mais rígidos.

Habitação: melhor acessibilidade, mas sem confiança para virar o ciclo

O imobiliário continua a agir como barómetro de confiança.

  • Canadá (novembro): vendas -0,6% m/m, preços -0,4% m/m; vendas -10,7% a/a e HPI -3,7% a/a. A leitura oficial foi de que o rali do meio do ano perdeu força e entrou num padrão de espera.
  • Grande Toronto (dezembro): vendas sazonais -0,4% m/m para 5.624 (mínimos desde junho) e HPI 962.300 dólares canadianos (-0,7% m/m; -6,3% a/a). No total de 2025, vendas -11,2%, novas listas +10,1% e preço médio -4,7%.

Apesar de taxas e preços mais baixos estarem a melhorar a acessibilidade, o fator que bloqueia o ciclo é psicológico e macro: famílias aguardam sinais de que a economia e o emprego estão “num bom caminho” antes de regressarem em força.

Comércio externo: um superavit “sinal”, mas dependente de condições excecionais

O Canadá registou em setembro um superavit comercial de 153 milhões de dólares canadianos, contra um défice de 6,43 mil milhões no mês anterior. As exportações subiram 6,3% para 64,23 mil milhões, enquanto as importações caíram 4,1% para 64,08 mil milhões.

O resultado foi puxado por um aumento do superavit com os EUA (com exportações para os EUA em 45,84 mil milhões) e por crescimento expressivo de exportações para fora dos EUA (+11%), sugerindo alguma estabilização e diversificação, mesmo num contexto de tarifas e incerteza.

Política monetária e 2026: pausa hoje, debate sobre a próxima direção

O Banco do Canadá manteve a taxa em 2,25% e o enquadramento atual coloca o banco central num equilíbrio delicado:

  • A atividade (PIB e PMIs) aponta para fraqueza e risco de crescimento baixo no arranque de 2026.
  • O emprego melhora e o desemprego cai, o que reduz urgência de estímulo adicional.
  • A inflação está próxima do alvo, mas com fricções (alimentação/tarifas) que exigem prudência.

Neste contexto, é natural que o mercado oscile entre narrativas, desde “precisamos de mais cortes” até “o próximo passo é subida”. A mensagem que sobressai dos dados recentes é que, sem uma melhoria clara e sustentada no ciclo de atividade, a tese de subidas rápidas tende a ser prematura, mesmo que as surpresas positivas no emprego tenham reduzido a probabilidade de mais cortes a curto prazo.

Conclusão

O Canadá entra em 2026 com uma economia “em duas velocidades”. Os dados oficiais mostram estabilização pontual, com recuperação parcial do PIB após a queda de outubro e um mercado de trabalho surpreendentemente resiliente, mas os inquéritos empresariais continuam a indicar contração prolongada em serviços e no setor industrial, num ambiente em que a incerteza comercial e as tarifas mantêm a procura contida.

A inflação permanece compatível com o objetivo do banco central (2,2%), mas com sinais de pressão em alimentação, enquanto a habitação melhora em acessibilidade sem conseguir recuperar confiança. Para a estratégia macro, o ponto-chave é este: o “piso” parece mais firme do que no meio de 2025, mas a economia ainda não mostra tração suficiente para um regime de crescimento saudável. Em 2026, a direção será determinada menos pelo nível de juros em si e mais pela capacidade de dissipar a incerteza do comércio com os EUA e de transformar melhorias pontuais (emprego, comércio) em procura doméstica sustentável.


Visite o Disclaimer para mais informações.

Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.

(Artigo sobre a Economia dos EUA, formato “Geral”, atualizado com informações até 07 de Janeiro de 2026. Categorias: Economia. Tags: Economia, EUA, PIB)

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