EUA, Economia – 31 Jan 26

Economia dos EUA entra em 2026 com crescimento robusto, mas mercado de trabalho cada vez mais anémico


Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a EUA. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos da atividade económica mais relevantes que impactam esta economia e mundo, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise. 


Strategic Highlights – 09 janeiro 2026

  • Crescimento económico manteve-se forte no 3.º trimestre, com o PIB a avançar 4,3% em termos anualizados, suportado por ganhos expressivos de produtividade.
  • Criação de emprego em forte desaceleração, com apenas 50 mil novos postos em dezembro e um total de 584 mil empregos criados em 2025, menos de um terço do registado em 2024.
  • Taxa de desemprego recua para 4,4%, mas a descida reflete sobretudo contração da força de trabalho e não uma recuperação da procura por emprego.
  • Produtividade laboral cresce 4,9% no 3.º trimestre, o ritmo mais elevado em dois anos, permitindo compressão dos custos unitários do trabalho.
  • Setor industrial permanece em contração prolongada, com o PMI industrial a cair para 47,9 em dezembro, o décimo mês consecutivo abaixo de 50, penalizado por tarifas e fraca procura.

Nota de Contexto

A economia dos Estados Unidos atravessa uma fase frequentemente descrita como “expansão sem emprego”, em que o crescimento do PIB e da produtividade não se traduz em criação significativa de postos de trabalho. Este desfasamento ganhou relevância em 2025, num contexto marcado por política comercial restritiva, integração acelerada de inteligência artificial (IA) nos processos empresariais e elevada incerteza regulatória, fatores que condicionam decisões de contratação. O enquadramento é particularmente relevante para a Reserva Federal (Fed), que já iniciou um ciclo de cortes de taxas, mas enfrenta divisões internas profundas quanto à necessidade de novos estímulos monetários.

Crescimento económico robusto, sustentado pela produtividade

Os dados mais recentes confirmam que a economia norte-americana manteve um ritmo de crescimento sólido ao longo da segunda metade de 2025. O PIB cresceu 4,3% no 3.º trimestre, beneficiando de um contributo relevante da produtividade, que avançou 4,9% em termos anualizados, o registo mais elevado desde 2023.

Este aumento da eficiência permitiu às empresas expandirem a produção sem reforçar as equipas, traduzindo-se numa queda dos custos unitários do trabalho de 1,9% no 3.º trimestre e numa subida moderada dos custos laborais em termos anuais (+1,2%). Do ponto de vista macroeconómico, esta combinação é favorável ao controlo da inflação, ao mesmo tempo que reforça a narrativa de que o crescimento atual não depende do mercado de trabalho.

A leitura dominante entre economistas é que a adoção de IA e automação está a alterar estruturalmente a relação entre crescimento e emprego, elevando o “limite de velocidade” da economia sem pressionar salários ou preços no curto prazo.

Mercado de trabalho perde dinamismo e entra em modo “baixo contratar, baixo despedir”

Apesar do crescimento do PIB, o mercado de trabalho continua a revelar sinais claros de perda de tração. Em dezembro, a economia criou apenas 50 mil empregos, abaixo das expectativas, depois de 56 mil em novembro (valor revisto). No total de 2025, foram criados 584 mil postos de trabalho, uma média mensal de cerca de 49 mil, muito aquém dos 168 mil mensais em 2024.

Alguns indicadores-chave reforçam este diagnóstico:

  • Pedidos semanais de subsídio de desemprego mantêm-se baixos em termos históricos (208 mil), sugerindo ausência de despedimentos em massa.
  • Beneficiários contínuos aumentaram para 1,914 milhões, sinalizando maior dificuldade de reintegração no mercado de trabalho.
  • Rácio de ofertas de emprego por desempregado caiu para 0,91, o nível mais baixo desde março de 2021.
  • Duração mediana do desemprego subiu para 11,4 semanas, máximo em quatro anos.

A descida da taxa de desemprego para 4,4%, a partir de 4,5% em novembro, não resulta de uma recuperação do emprego, mas sim de uma redução da população ativa, um sinal de fragilidade subjacente.

Criação de emprego cada vez mais concentrada

A desaceleração do emprego é acompanhada por uma concentração extrema dos ganhos em poucos setores. Em dezembro, apenas 50,8% das indústrias reportaram criação líquida de emprego.

Os principais destaques positivos foram:

  • Restauração e bares: +27 mil empregos
  • Saúde: +21 mil, sobretudo em hospitais
  • Apoio social: +17 mil

Em contraste, registaram-se perdas relevantes em setores cíclicos:

  • Retalho: −25 mil
  • Industrial: −8 mil em dezembro e −68 mil em 2025
  • Construção: −11 mil

Esta assimetria reforça a perceção de um mercado de trabalho estruturalmente enfraquecido, em que a criação de emprego não acompanha o crescimento económico.

Setor industrial continua sob forte pressão

O setor industrial permanece um dos principais focos de fragilidade. O PMI industrial do ISM caiu para 47,9 em dezembro, o valor mais baixo desde outubro de 2024, marcando o décimo mês consecutivo em contração.

Os dados mostram:

  • Novas encomendas em contração pelo décimo mês em onze
  • Emprego industrial em queda há 11 meses consecutivos
  • 85% do PIB industrial em território de contração
  • Custos de produção elevados, com o índice de preços pagos em 58,5

As tarifas comerciais, que elevaram a tarifa média de importação para perto de 17%, continuam a penalizar encomendas, margens e investimento. Mesmo setores que beneficiam da procura ligada à IA reportam dificuldades em repercutir custos, enquanto as encomendas para 2026 permanecem significativamente abaixo dos padrões históricos.

Consumo resiliente, mas com crescimento mais lento

Do lado da procura, o consumo mostrou resiliência durante a época festiva. As vendas online entre novembro e dezembro cresceram 6,8%, atingindo um máximo histórico de 257,8 mil milhões de dólares, embora abaixo do crescimento de 8,7% do ano anterior.

O dinamismo foi sustentado por:

  • Descontos agressivos
  • Crescimento do “buy now, pay later”, que representou 20 mil milhões de dólares, +9,8% em termos homólogos
  • Maior utilização de smartphones, responsáveis por 56,4% das transações

Ainda assim, a moderação do ritmo de crescimento confirma que o consumidor está mais cauteloso, num contexto de inflação persistente e incerteza económica.

Implicações para a Reserva Federal

Este enquadramento macroeconómico está a acentuar divisões históricas dentro da Fed. Apesar de o banco central ter reduzido a taxa de referência para 3,50%–3,75% em dezembro, a decisão foi marcada por três dissidências, um nível de desacordo raro.

O dilema central mantém-se:

  • Produtividade elevada e custos laborais contidos favorecem cortes adicionais
  • Inflação próxima de 3% e crescimento robusto limitam a urgência de estímulos

Os mercados já não antecipam de forma consensual novos cortes no curto prazo, e as expectativas apontam para uma Fed em modo de espera, à procura de sinais mais claros de deterioração do mercado de trabalho.

Conclusão

A economia dos EUA entra em 2026 com uma combinação pouco habitual: crescimento sólido, produtividade elevada e um mercado de trabalho claramente enfraquecido. A ausência de despedimentos em massa mascara uma realidade de contratação mínima, aumento da duração do desemprego e retração estrutural em setores-chave como o industrial.

Para os decisores de política monetária, o desafio será distinguir entre uma fraqueza cíclica passageira e uma transformação estrutural induzida por IA, tarifas e mudanças demográficas. Enquanto essa distinção não for clara, a Fed deverá manter uma postura cautelosa, num contexto em que o crescimento já não garante, por si só, criação de emprego.


Visite o Disclaimer para mais informações.

Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.

(Artigo sobre a Economia dos EUA, formato “Geral”, atualizado com informações até 09 de Janeiro de 2026. Categorias: Economia. Tags: Economia, EUA, PIB)

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