EUA: relançamento nuclear acelera com foco no combustível, data centers e soberania energética
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Strategic Highlights – 5 janeiro 2026
- Os EUA atribuíram 2,7 mil milhões USD em contratos a três empresas para expandir a capacidade doméstica de enriquecimento de urânio ao longo de 10 anos, reduzindo a dependência da Rússia no fornecimento nuclear.
- 900 milhões USD foram atribuídos a cada uma de três entidades (American Centrifuge Operating, General Matter e Orano Federal Services), com foco em HALEU e urânio de baixo enriquecimento para reatores atuais e novos small modular reactors (SMR).
- A aposta no combustível nuclear enquadra-se numa estratégia mais ampla de relançamento do setor, impulsionada pela explosão da procura elétrica de data centers ligados à inteligência artificial.
- Segundo a Wood Mackenzie, a produção nuclear dos EUA deverá manter-se estável até 2035 e depois crescer 27% até 2060, com os SMR como tecnologia-chave para responder à nova procura.
- Em paralelo, o ambicioso acordo da administração Trump com a Westinghouse (até 80 mil milhões USD em novos reatores) levantou preocupações regulatórias e de segurança, com críticos a alertarem para riscos de interferência política no licenciamento nuclear.
Nota de Contexto
Os EUA mantêm uma das maiores frotas nucleares do mundo, mas perderam, ao longo de décadas, capacidade industrial crítica na cadeia de combustível nuclear, passando a depender da Rússia para o fornecimento de HALEU, urânio enriquecido entre 5% e 20%, essencial para reatores avançados. O atual relançamento nuclear norte-americano combina segurança energética, descarbonização e competitividade tecnológica, num contexto de forte crescimento da procura elétrica por parte do setor tecnológico.
1) O gargalo estratégico: combustível nuclear e dependência da Rússia
O anúncio de 5 janeiro 2026 marca um ponto de viragem na política energética dos EUA. O Departamento da Energia (DOE) atribuiu contratos no valor total de 2,7 mil milhões USD para expandir o enriquecimento doméstico de urânio, com metas explícitas ao longo de uma década.
Os contratos exigem o cumprimento de marcos operacionais para fornecer:
- urânio de baixo enriquecimento (até cerca de 5%), usado nos reatores atuais;
- HALEU, necessário para reatores avançados e SMR.
Este movimento responde a um risco estrutural: a Rússia é atualmente o único produtor comercial de HALEU em escala, o que representa um ponto crítico de vulnerabilidade geopolítica. A legislação norte-americana prevê mesmo a proibição total de importações de urânio russo até 2028, tornando inevitável o investimento doméstico.
A distribuição dos contratos é reveladora:
- American Centrifuge Operating (Centrus Energy): 900 milhões USD para HALEU;
- General Matter (apoiada por Peter Thiel): 900 milhões USD para HALEU;
- Orano Federal Services: 900 milhões USD para expansão de urânio de baixo enriquecimento.
Adicionalmente, o DOE concedeu 28 milhões USD à Global Laser Enrichment (participada pela Cameco) para tecnologias de enriquecimento de próxima geração, ainda que abaixo do financiamento inicialmente pretendido.
Leitura estratégica: sem resolver o problema do combustível, a expansão nuclear planeada nos EUA ficaria estruturalmente bloqueada. Estes contratos atacam o “choke point” da cadeia de valor.
2) Data centers, IA e o regresso do nuclear como solução de base
O relançamento nuclear não ocorre num vazio. A Wood Mackenzie enquadra-o numa transformação profunda do sistema elétrico:
- a procura global de eletricidade por data centers deverá atingir 700 TWh em 2025 e 3.500 TWh em 2050, equivalente ao consumo atual combinado da Índia e Médio Oriente;
- nos EUA, esta pressão sobre as redes está a levar grandes empresas tecnológicas a procurarem energia firme, estável e sem carbono.
É neste contexto que:
- a NextEra Energy firmou parceria com a Google para reativar uma central nuclear no Iowa;
- outras gigantes tecnológicas, como a Microsoft, assinaram acordos para tecnologias nucleares de nova geração.
Segundo a Wood Mackenzie:
- a produção nuclear dos EUA deverá permanecer estável até 2035;
- após esse ponto, crescerá 27% até 2060, acompanhando a maturação de novos projetos.
Os small modular reactors surgem como peça central desta estratégia: são descritos como mais baratos, mais rápidos de construir e passíveis de co-localização com data centers, reduzindo necessidades de infraestrutura adicional.
3) A grande aposta política: Westinghouse e o risco regulatório
Em contraste com o foco técnico no combustível, o acordo anunciado em outubro de 2025 entre a administração Trump e os proprietários da Westinghouse Electric introduz uma dimensão política controversa.
O acordo prevê:
- apoio governamental ao financiamento e licenciamento de até 80 mil milhões USD em novos reatores Westinghouse;
- uma potencial participação de 20% do governo dos EUA nos lucros futuros e no capital da empresa, caso a sua avaliação ultrapasse 30 mil milhões USD até 2029.
Analistas da TD Cowen estimam que este acordo possa resultar em 10 novos grandes reatores em construção até 2030.
No entanto, especialistas e antigos reguladores levantam alertas claros:
- riscos de erosão da independência regulatória da Nuclear Regulatory Commission;
- precedentes históricos de acidentes graves (Three Mile Island, Chernobyl, Fukushima) associados a falhas institucionais;
- dúvidas sobre a capacidade da força de trabalho para executar tantos projetos em simultâneo.
O historial recente reforça estas preocupações: o último grande projeto da Westinghouse nos EUA (Vogtle, Geórgia) sofreu atrasos de cerca de 7 anos e custos finais de 35 mil milhões USD, mais do dobro do inicialmente previsto (14 mil milhões USD).
Contraste chave: enquanto a política de combustível é incremental, técnica e focada em resiliência, o acordo Westinghouse é rápido, politizado e potencialmente desestabilizador do quadro regulatório.
4) Implicações estratégicas: soberania, transição energética e execução
Da leitura da informação cruzada, emergem três implicações centrais:
- O nuclear regressa como ativo estratégico, não apenas climático. A motivação vai além da descarbonização: trata-se de segurança energética, autonomia industrial e competitividade tecnológica num mundo de rivalidade geopolítica.
- O combustível é o verdadeiro “enabler” da nova vaga nuclear. Sem HALEU doméstico, os SMR e reatores avançados não são escaláveis. Os 2,7 mil milhões USD agora atribuídos atacam diretamente esse risco.
- A execução será o fator crítico. Entre licenciamento, custos, mão-de-obra e aceitação pública, o histórico mostra que ambição política não garante entrega. O sucesso dependerá de manter regulação robusta e disciplina industrial, evitando repetir os erros do passado.
Conclusão
Os EUA estão a relançar o nuclear de forma mais estruturada do que em décadas recentes, começando pelo ponto mais frágil da cadeia: o combustível. O investimento de 2,7 mil milhões USD em enriquecimento de urânio é um passo decisivo para reduzir dependências externas e viabilizar reatores avançados num contexto de explosão da procura elétrica associada à IA.
No entanto, este impulso convive com uma aposta política de grande escala o acordo com a Westinghouse, que introduz riscos relevantes de execução e governança. O sucesso da estratégia nuclear norte-americana dependerá menos do volume de anúncios e mais da capacidade de alinhar segurança regulatória, realismo industrial e continuidade de financiamento ao longo de décadas.
Em suma, o nuclear volta ao centro da política energética dos EUA, não como solução rápida, mas como infraestrutura estratégica de longo prazo.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Energia Nuclear nos EUA, formato “Geral”, atualizado com informações até 05 de Janeiro de 2026. Categoria: Global. Classe de Ativos: N/A. Tags: Global, Energia, Energia Nuclear, EUA)