Fed: divisões internas, dados “ruidosos” e pressão política elevam o risco de um 2026 mais volátil do que o “dot plot” sugere
Aqui pode acompanhar os últimos desenvolvimentos relacionadas com a Política Monetária da Reserva Federal. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta economia e mundo com as políticas, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 6 janeiro 2026
- Após cortar taxas em 75 pontos-base em 2025, a Fed entra em 2026 em modo “wait-and-see”, com o intervalo atual da fed funds rate em 3,50%–3,75% e uma divisão interna invulgarmente exposta
- As atas de dezembro (9–10) mostram que mesmo alguns apoiantes do corte consideraram a decisão “finamente equilibrada”, enquanto outros defendem manter taxas inalteradas por algum tempo devido a inflação persistente
- A incerteza macro foi amplificada por um shutdown de 43 dias, que distorceu indicadores: CPI de novembro em 2,7% pode ter sido “puxado para baixo” em cerca de 0,1 p.p., e o desemprego pode ter sido “puxado para cima” em 0,1 p.p.
- A sucessão de Powell e a pressão da Casa Branca tornam-se um fator de mercado: Trump promete um próximo chair que defenda taxas “mais baixas, por muito” e sugere que o presidente da Fed deveria consultar a presidência sobre decisões
- A ala mais “dovish” ganha visibilidade com Stephen Miran a defender cortes agressivos (>100 pb em 2026) e com Kashkari a alertar para risco de o desemprego “disparar” (“pop”) mesmo com inflação ainda alta
Nota de Contexto
A Federal Reserve é o banco central dos EUA e o principal “price-maker” global para condições financeiras em dólares. A sua política é definida pelo FOMC, que combina os 7 governadores (votam sempre) e presidentes regionais (voto rotativo). A Fed opera sob duplo mandato: estabilidade de preços (inflação a 2%) e máximo emprego. Em 2025, a Fed iniciou um ciclo de cortes (total de 75 pb) para aliviar restrição monetária numa economia que dava sinais de abrandamento no emprego, mas com inflação ainda acima da meta, um equilíbrio que entra em 2026 com maior fricção política e maior dispersão de opiniões internas.
1) O “ponto de partida”: taxas já perto de “neutral”, mas sem consenso sobre o próximo passo
O pano de fundo é um FOMC que já reconhece estar próximo do nível neutro (nem estimula nem trava), e por isso mais sensível a erros de calibragem. A própria nota Reuters “hawks vs doves” aponta que, após os cortes de 2025, os decisores sinalizam que vão esperar por dados antes de novo movimento.
Do lado mais prudente, John Williams é direto: “não vejo urgência” para novos cortes, sustentando que os cortes já feitos colocaram a Fed “bem posicionada” e que é preciso clarificar dados antes de agir. A sua mensagem é importante porque Williams é um dos pilares do centro da Fed e vota permanentemente.
Em paralelo, Kashkari sugere que a política pode estar “perto do neutral”, mas descreve um trade-off incerto: risco de inflação persistente (tarifas com efeitos ao longo de anos) versus risco de subida do desemprego. Esta formulação indica que o debate já não é “cortar ou não cortar”, mas quão simétricos são os riscos e qual o gatilho para reativar o easing.
2) Dezembro: um corte com 3 dissidências e um FOMC “finamente equilibrado”
As atas de 30 dezembro (referentes à reunião de 9–10 dezembro 2025) expõem uma Fed onde até o consenso aparente é frágil. As minutes sublinham que:
- alguns participantes que votaram pelo corte admitiram que a decisão era “finamente equilibrada” e que poderiam ter apoiado manter taxas inalteradas
- houve preocupação de que o progresso rumo aos 2% possa ter “estagnado”
- e vários sugeriram que, no seu cenário, seria apropriado manter a taxa inalterada por algum tempo após o corte
A Reuters antecipava esta fratura ao notar que a decisão de dezembro foi 9–3, com dois dissidentes contra qualquer corte e Miran a dissentir no sentido oposto (queria 50 pb). A combinação é rara e reforça o diagnóstico: a Fed entrou numa fase em que o “marginal move” é muito disputado.
Projeções: dispersão e sinal de travão
A peça de 5 janeiro resume o quadro de projeções: a mediana em dezembro era um corte de 25 pb até ao final de 2026, mas com dispersão elevada (entre os 19, 7 queriam menos, 8 queriam mais). Isto não é apenas ruído estatístico: é o retrato de um comité que não partilha um cenário central suficientemente robusto.
3) O problema dos dados: “ruído” do shutdown cria assimetria no risco de policy mistake
Williams dá um detalhe crítico: o shutdown de 43 dias contaminou a qualidade de leitura do ciclo. No CPI de novembro:
- a inflação anual saiu em 2,7% (abaixo do esperado), mas Williams diz que distorções podem ter puxado o número ~0,1 p.p. para baixo【
No mercado de trabalho:
- o desemprego subiu para 4,6%, mas Williams considera que a falha de recolha em outubro pode ter empurrado o número ~0,1 p.p. para cima【
A implicação é direta: se os dados “bons” (inflação) são subestimados e os dados “maus” (desemprego) são sobrestimados, a Fed arrisca interpretar a economia como mais “dovish” do que é, e cortar cedo demais. Ao mesmo tempo, a própria falta de confiança nos dados pode levar a uma paralisia excessiva (hold prolongado), agravando risco no emprego. É um cenário em que o erro de política pode acontecer em ambas as direções.
4) O eixo político: sucessão de Powell e pressão pública tornam-se variável macro
A dimensão política deixou de ser “ruído de fundo” e passou a elemento explícito.
Em 17 dezembro 2025, Trump afirma que o próximo presidente da Fed será alguém que acredita em taxas “mais baixas, por muito” e que isso ajudará a reduzir prestações de crédito habitação. Mais relevante ainda, diz que o chair deveria consultar a presidência sobre decisões de taxas, algo que “tipicamente não é feito” atualmente.
A Reuters também lista finalistas conhecidos (Hassett, Warsh, Waller) como defensores de taxas mais baixas do que as atuais, reforçando a probabilidade de um mercado começar a precificar, ainda antes da nomeação, um “policy skew” mais dovish no topo.
Esta incerteza é amplificada pelo caso Miran: nomeado por Trump, com mandato a terminar a 31 janeiro, mas com possibilidade de permanecer até confirmação de sucessor. O próprio Miran diz que, se ninguém for confirmado, “assumo que vou ficar”. Ou seja: a composição do Board pode tornar-se um tema de calendário e de Senado, não apenas de FOMC.
5) A ala dovish: Miran pede “big cuts” e Kashkari alerta para desemprego
Miran: >100 pb em 2026
A 6 janeiro 2026, Miran eleva o tom: diz que a política está “claramente restritiva” e “a travar a economia”, defendendo que bem mais de 100 pb de cortes são justificados em 2026. Argumenta que a inflação subjacente está “basicamente” na meta de 2% e que cortes são necessários para não comprometer crescimento robusto.
Isto cria uma tensão óbvia com a visão dominante do FOMC, que “pencilou” apenas um corte como cenário-base, e expõe a Fed a um risco reputacional: se o debate público ficar polarizado (hold versus cortes agressivos), o mercado pode começar a negociar a Fed como se fosse um banco central politicamente capturado, mesmo que isso não se materialize.
Kashkari: dois riscos em simultâneo
Kashkari, por seu lado, descreve um dilema mais simétrico: inflação pode persistir (efeitos das tarifas ao longo de anos), mas desemprego pode “pop” para cima. E reforça que está “perto do neutral”, pedindo mais dados para decidir a direção. Esta posição é particularmente relevante porque Kashkari é votante em 2026, e porque enquadra a política como dependente de qual dos riscos se materializa primeiro.
6) Mercado em 2026: sucessão da Fed como “tail risk” e risco de “over-easing”
A peça Reuters “Markets’ 2026 watch list” coloca a sucessão da Fed no centro do risco de cauda. A citação é clara: o risco subestimado seria a Fed afrouxar mais do que as condições justificam, reacendendo inflação e obrigando a reversão disruptiva.
Do lado do pricing, a mesma peça refere que os mercados apontam para duas reduções de 25 pb até ao final do ano, embora o texto também sublinhe que custos de financiamento devem permanecer elevados e que yields longas podem não cair muito. Isto conversa com o argumento político (taxas Fed não controlam diretamente as taxas longas), mas, do ponto de vista de estratégia, sugere um ano em que:
- o front-end é altamente sensível a dados e à política
- o long-end pode manter-se “teimoso” se houver preocupações fiscais/inflação
Conclusão
A Fed entra em 2026 com três forças a puxar em direções diferentes: (i) um comité dividido e perto do “neutral”, onde cada movimento tem maior custo reputacional; (ii) dados macro ainda contaminados por distorções do shutdown, que aumentam o risco de erro de política; e (iii) um vetor político crescente, com a sucessão de Powell e declarações explícitas de Trump a tornarem a independência da Fed uma variável de mercado.
O cenário-base implícito nos documentos é de pausa no curto prazo, até clarificação de inflação e emprego. Mas a combinação de pressões, Miran a defender cortes >100 pb, Kashkari a alertar para risco de subida do desemprego e a Casa Branca a exigir taxas “muito mais baixas”, aumenta a probabilidade de 2026 ser menos linear do que o “dot plot” indica. Para investidores, a leitura estratégica é simples: o risco dominante já não é apenas “quando será o próximo corte”, mas sim quem controla a narrativa e com que credibilidade, porque, num regime de taxas perto do neutral, expectativas e comunicação tornam-se tão relevantes quanto os próprios dados.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Política Monetária do Banco Central dos EUA, formato “Geral”, atualizado com informações até 06 de Janeiro de 2026. Categorias: Bancos Centrais. Tags: Política Monetária, FED, Banco Central, EUA, Taxa de Juro)