Índia, Economia – 30 Jan 26

Índia: crescimento surpreende em alta, mas sinais de arrefecimento “micro” e ruído estatístico tornam o debate sobre cortes do RBI mais delicado


Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Índia. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos da atividade económica mais relevantes que impactam esta economia e mundo, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.


Strategic Highlights – 07 Janeiro 2026

  • A estatística oficial estima que o PIB cresça 7,4% no ano fiscal que termina em março, acima da projeção inicial do governo (6,3%–6,8%), sustentado por procura doméstica e despesa pública.
  • Apesar do crescimento forte, os inquéritos apontam para perda de momentum: o PMI industrial desceu para 55,0 (mínimo de 2 anos) e o PMI de serviços para 58,0 (mínimo de 11 meses), com contratação a estagnar e confiança empresarial em queda.
  • A inflação continua excecionalmente baixa: o CPI subiu para 0,71% em novembro (de 0,25%), mantendo-se abaixo do intervalo-alvo do RBI pelo 3.º mês consecutivo, embora o core permaneça em 4,2%–4,3%.
  • A produção industrial acelerou para +6,7% a/a em novembro (máximo de 2 anos), puxada por industrial (+8%), mineração (+5,4%) e forte recuperação de bens de consumo e capital, mas com expectativa de moderação em dezembro.
  • As exportações mostraram resiliência apesar de tarifas dos EUA até 50%: exportações de bens subiram >19% em novembro para 38,13 mil milhões de dólares, com envios para os EUA +22%, reforçando a posição negocial de Nova Deli.

Nota de Contexto

A Índia tem-se destacado como a grande história de crescimento entre as principais economias, suportada por investimento público, reformas internas e uma procura doméstica relativamente resiliente. Ao mesmo tempo, a política comercial dos EUA tornou-se um risco externo material, com tarifas punitivas até 50% em alguns bens, parcialmente associadas às compras indianas de petróleo russo. O quadro monetário é singular: inflação muito abaixo do alvo e crescimento elevado, uma combinação que, em teoria, dá margem ao banco central, mas que na prática exige calibragem fina para evitar decisões pró-cíclicas.

Crescimento: 7,4% no ano fiscal e a força do “motor interno”

A estimativa oficial de crescimento de 7,4% para o ano fiscal 2025/26 (termina em março) altera o enquadramento do arranque de 2026: em vez de uma economia a abrandar rapidamente sob tarifas, o quadro reportado é de uma economia que mantém ritmo próximo do seu potencial, com suporte visível de:

  • consumo privado: crescimento projetado de 7% a/a, representando cerca de 60% do PIB;
  • investimento privado: projetado em +7,8%, acima do ano anterior;
  • despesa pública: estimada em +5,2% (vs. +2,3% no ano anterior).

O governo enquadra este desempenho como resultado de reformas aceleradas por Narendra Modi, incluindo alterações a impostos ao consumo e reformas laborais, procurando amortecer o choque externo e reforçar “resiliência interna”.

A implicação para mercados é clara: um crescimento acima do esperado tende a sustentar lucros domésticos e receitas fiscais, mas também pode tornar o RBI mais cauteloso em continuar a baixar juros sem sinais inequívocos de desaceleração.

O “ruído” do PIB: surpresa recorrente e debate sobre qualidade estatística

Há, contudo, um segundo nível nesta história: a recorrência de surpresas em alta no PIB. No trimestre julho–setembro, o crescimento foi 8,2%, cerca de 1 p.p. acima do consenso, e não foi um caso isolado. A discussão pública ganhou intensidade por limitações metodológicas e de dados, com críticas à forma como o PIB real é deflacionado e à ausência de alguns indicadores (como um PPI abrangente), levando o FMI a atribuir uma notação “C” à qualidade das contas nacionais.

Este tema não é académico: quanto maior a incerteza estatística, maior o risco de políticas públicas “a reagir” a dados que não captam bem a dinâmica real, especialmente num ponto do ciclo em que a economia parece forte nos agregados, mas mostra sinais de abrandamento em inquéritos.

PMIs: expansão continua, mas a economia está a “desacelerar por dentro”

Apesar de se manterem em território expansionista (acima de 50), os PMIs sugerem que a Índia está a entrar numa fase de crescimento menos exuberante:

Setor industrial

O PMI industrial caiu para 55,0 em dezembro (de 56,6), mínimo em 2 anos. O detalhe mais relevante é a desaceleração das novas encomendas (crescimento mais fraco em 2 anos) e a quase estagnação do emprego, com o índice de contratação a cair para o nível mais fraco desde início de 2024. O sentimento para a produção futura desceu para mínimo de quase 3 anos e meio.

A nota externa é importante: o crescimento das exportações industriais abrandou para mínimo de 14 meses, com referência a tarifas dos EUA até 50%, e com a desvalorização da rúpia a ainda não gerar o “boost” exportador que muitos antecipavam.

Serviços

O PMI de serviços abrandou para 58,0 (de 59,8), mínimo em 11 meses, com o indicador de contratação a terminar uma sequência de 42 meses de crescimento do emprego (quase todas as empresas mantiveram efetivos inalterados). A confiança caiu pelo 3.º mês consecutivo, para mínimo de mais de 3 anos.

Aqui, a leitura é de transição: o setor continua forte, mas a competição por preço e a menor aceleração de novos negócios sugerem um crescimento mais “normal”, menos impulsionado por procura reprimida.

Inflação: headline quase “zero”, core ainda elevado e a janela para o RBI continua aberta

A inflação é o grande diferenciador macro. Em novembro, o CPI subiu para 0,71% (de 0,25%), mantendo-se abaixo do intervalo do RBI pelo 3.º mês consecutivo. A queda dos preços alimentares continua a ser o grande motor: alimentação -3,91% a/a (após -5,02%), com vegetais -22,20%.

O problema, e o motivo para o RBI ser prudente, é que o core continua em 4,2%–4,3%, ainda elevado para um país com ambição de desinflação sustentável, e influenciado por componentes como ouro.

Em termos de política monetária:

  • O RBI já cortou taxas em 125 bps em 2025.
  • Economistas continuam a ver espaço para mais 25 bps em fevereiro, se o crescimento mostrar abrandamento após a época festiva e sob o impacto das tarifas.

O ponto de síntese é que o RBI tem “margem” no headline, mas a decisão depende do balanço entre: sinais de desaceleração (PMIs/confiança) e robustez dos agregados (PIB/produção industrial).

Produção industrial: recuperação forte em novembro, mas com sinais de “efeito base” e restocking

A produção industrial cresceu 6,7% a/a em novembro, muito acima do esperado, após revisão de outubro para 0,5%. O salto foi amplo:

  • industrial: +8%
  • mineração: +5,4%
  • bens de capital: +10,4%
  • duráveis: +10,3%
  • não duráveis: +7,3%

A interpretação proposta é plausível: restocking pós-festividades e normalização após chuvas fora de época que afetaram mineração e eletricidade. Por isso, a expectativa é de moderação para 3,5%–5% em dezembro, ou seja, o dado é forte, mas pode não ser um novo “trend”.

Exportações e tarifas dos EUA: a surpresa positiva que melhora o poder negocial

Apesar das tarifas dos EUA até 50%, as exportações indianas reagiram melhor do que o temido:

  • exportações totais de bens em novembro: 38,13 mil milhões de dólares (>19% a/a)
  • exportações para os EUA: +22% a/a

A leitura estratégica é dupla. Primeiro, reduz o risco de “hard landing” externo no curto prazo. Segundo, dá a Nova Deli maior margem para negociar com Washington, diminuindo a urgência de concessões rápidas, embora alguns setores continuem vulneráveis (ex.: mariscos, onde exportadores reportaram colapso dos envios para os EUA quando a tarifa torna o negócio inviável).

O suporte adicional vem de serviços (exportações de serviços estimadas em 35,86 mil milhões de dólares em novembro e superavit de cerca de 18 mil milhões), o que ajuda a “absorver” choques em bens.

Crédito bancário: procura melhora, mas a base de financiamento é o novo constrangimento

No sistema bancário, há sinais de reaceleração:

  • crédito sistémico a melhorar para ~11,4% a/a (de um mínimo de ~9% em maio);
  • HDFC Bank: empréstimos +11,9% a/a no trimestre de dezembro (acima de setembro e junho);
  • Kotak Mahindra Bank: +16% (mais rápido do ano fiscal);
  • Bank of Baroda: +14,6%.

O risco emerge do lado dos depósitos: a diferença entre crescimento de crédito e de depósitos volta a alargar, com o rácio loan-to-deposit em 81,6% (máximo histórico citado), o que pode limitar a descida de taxas de depósitos e reduzir a rapidez com que a política monetária se transmite.

Conclusão

A Índia começa 2026 com um paradoxo produtivo: os agregados macro sugerem um país a crescer perto do máximo, PIB estimado em 7,4% e produção industrial a acelerar 6,7%, enquanto os inquéritos mostram uma economia a perder velocidade “por dentro”, com abrandamento em encomendas, contratação e confiança.

A inflação extremamente baixa mantém uma janela para mais estímulo, mas o core ainda elevado e a força dos dados oficiais tornam o RBI mais dependente de evidência clara de desaceleração para voltar a cortar já em fevereiro. Em paralelo, a resiliência das exportações face a tarifas até 50% dá margem política e reduz risco de choque externo imediato, mas não elimina a vulnerabilidade setorial nem o impacto de médio prazo na confiança empresarial. O ponto-chave para investidores é que 2026 pode ser menos sobre “quão rápido a Índia cresce” e mais sobre qualidade do crescimento: se a desaceleração dos PMIs se traduzir em menor emprego e consumo urbano, o RBI terá cobertura para aliviar; se a robustez do PIB e do crédito se mantiver, o mercado terá de reprecificar uma Índia que cresce forte… mas num ambiente externo e estatístico mais incerto do que os headline numbers sugerem.


Visite o Disclaimer para mais informações.

Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.

(Artigo sobre a economia da Índia, formato “Geral”, atualizado com informações até 07 de Janeiro de 2026. Categorias: Economia. Tags: Economia, Índia)

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