Lululemon: ativismo, sucessão de CEO e “stress test” ao produto aumentam a urgência do turnaround
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Lululemon. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights
- Elliott Management tomou uma posição de cerca de 1.000 milhões de dólares na Lululemon e tem pressionado internamente para a nomeação de Jane Nielsen como potencial CEO.
- A Lululemon confirmou a saída de Calvin McDonald após quase sete anos como CEO e avançou para uma transição com co-CEOs interinos (Meghan Frank e André Maestrini).
- Desde o máximo histórico de 516,39 dólares (final de 2023), a ação chegou a acumular uma queda de cerca de 60%; em 2025, tinha recuado perto de metade.
- O fundador Chip Wilson lançou uma proxy fight, nomeando três candidatos independentes para o conselho, criticando falhas de supervisão e ausência de um plano claro de sucessão.
- Em janeiro de 2026, a empresa retirou temporariamente a linha “Get Low” do website após queixas de leggings “see-through”, retomando depois as vendas online com informação de produto e orientação de fit/sizing atualizadas.
Nota de Contexto
A Lululemon Athletica é um dos nomes mais relevantes do segmento athleisure (vestuário técnico e lifestyle), com uma marca historicamente associada a performance, comunidade e posicionamento premium. No entanto, o ciclo pós-pandemia expôs fragilidades: o crescimento desacelerou após o pico de procura de roupa confortável e o mercado ficou mais competitivo, com marcas como Alo e Vuori a ganharem tração junto de públicos mais jovens e sensíveis a novidade e tendência. Neste enquadramento, a empresa entra em 2026 sob pressão simultânea de governance (sucessão e composição do conselho) e de execução (produto, qualidade e cadência de lançamentos).
1) O “momento Elliott”: catalisador para acelerar mudanças
O ponto de viragem mais relevante recente é a entrada da Elliott Management com uma posição de cerca de 1.000 milhões de dólares, interpretada pelo mercado como um sinal de que a janela para uma mudança profunda encurtou. A leitura implícita é simples: um investidor ativista com histórico de “agitação” tende a exigir medidas visíveis, sobretudo quando a ação já incorpora uma deterioração material das expectativas.
A Reuters reportou que a Elliott tem trabalhado há meses com Jane Nielsen como potencial candidata a CEO. O perfil é descrito como o de uma gestora com reputação de turnaround, com experiência em Coach (antes de integrar a atual estrutura da Tapestry) e na Ralph Lauren, além de participação em conselho (Mondelez). A própria Nielsen sinalizou abertura para discutir o cargo, reforçando a perceção de que existe um processo real de alinhamento entre acionistas influentes e alternativas de liderança.
Implicação estratégica: mais do que “quem será o CEO”, o que está em causa é a capacidade da Lululemon recuperar velocidade de execução, porque, em retalho/vestuário, a perda de relevância junto do consumidor raramente é um problema que se resolva apenas com comunicação; exige um ciclo consistente de produto + disponibilidade + narrativa.
2) Sucessão e governance: transição de CEO tornou-se o tema central
A saída de Calvin McDonald (após quase sete anos) abriu um vazio que o mercado penaliza, sobretudo quando coincide com sinais de desgaste do posicionamento da marca. A empresa avançou com uma solução interina de co-CEOs, Meghan Frank (CFO) e André Maestrini (Chief Commercial Officer), enquanto decorre a procura por um CEO permanente.
Em paralelo, o fundador Chip Wilson elevou a fasquia ao lançar uma proxy fight, argumentando que o anúncio da mudança de CEO sem sucessor claro representou mais uma falha de supervisão do conselho. Wilson propôs três nomes para o board:
- Marc Maurer (ex co-CEO da On Running)
- Laura Gentile (ex CMO da ESPN)
- Eric Hirshberg (ex CEO da Activision)
A empresa respondeu que avaliaria as nomeações no seu processo de governance e que iniciou uma procura abrangente para o próximo CEO.
Implicação estratégica: a conjugação de (i) ativismo de um hedge fund, (ii) contestação pública do fundador e (iii) liderança interina cria um ambiente em que decisões de curto prazo, gama, pricing, calendarização de lançamentos, reforço de controlo de qualidade, passam a ser escrutinadas como “provas” da competência da equipa atual. Mesmo quando certas medidas são táticas, o mercado tende a lê-las como sinais de disciplina (ou falta dela).
3) Produto e reputação: o risco de qualidade voltou ao centro
O episódio de janeiro de 2026 com a linha “Get Low” é particularmente sensível porque reabre uma ferida histórica: queixas de consumidor sobre transparência/adequação do produto. Após reclamações de que leggings eram “see-through” ao dobrar/agachar, a empresa retirou temporariamente a coleção do website, e as ações reagiram com uma queda de 6,5% quando o tema ganhou tração. Dias depois, a Lululemon retomou as vendas online, afirmando que atualizou a informação de produto e a orientação sobre fit, sizing e features para apoiar decisões de compra.
Este caso não é isolado. Em 2024, a Lululemon já tinha retirado os leggings “Breezethrough” poucas semanas após o lançamento, por críticas ao fit, material e costuras, o que reduziu opções novas numa categoria crucial (bottoms femininos).
Implicação estratégica: para uma marca premium, problemas de “produto básico” têm um efeito assimétrico: o dano reputacional pode ser superior ao impacto de vendas de uma coleção específica. Além disso, num mercado onde concorrentes estão a ganhar relevância precisamente por novidade e “cool factor”, uma falha de qualidade reforça a narrativa de perda de liderança em vestuário técnico.
4) A concorrência e a batalha pelo “cool factor” (com Gen Z como árbitro)
O diagnóstico recorrente no mercado é que a Lululemon precisa recuperar o seu “cool factor” e a relevância junto de consumidores mais jovens. O contexto competitivo agravou-se com Alo e Vuori a disputarem o mesmo público premium/aspiracional.
Na análise citada, surgem sugestões concretas para reposicionar a proposta de produto:
- necessidade de frescos designs e acelerar lançamentos que “cliquem” com a Gen Z;
- upgrade de tecidos e reforço do elemento técnico;
- e até a ideia de implementar uma abordagem mais próxima de fast fashion, o que implicaria uma cadeia de abastecimento mais ágil do que a atual.
Também aparecem críticas de consumidores sobre preços elevados e perceção de qualidade e falta de novidade, enquanto analistas apontam para a incapacidade de “trazer algo novo” num período em que a concorrência se intensificou.
Implicação estratégica: a discussão sobre fast fashion deve ser lida com cuidado, não tanto como “baixar a qualidade” ou “massificar”, mas como encurtar ciclos, testar mais rápido e reduzir o risco de coleções que chegam tarde. Para a Lululemon, a chave é conciliar velocidade com qualidade técnica, sem diluir a marca premium.
5) Mercado: performance da ação, re-rating e a mensagem do múltiplo
A reação do mercado mostra como os investidores estão a “precificar mudança”:
- Na notícia do investimento da Elliott, as ações subiram até 9%, chegando a cerca de 225,98 dólares numa sessão, refletindo a expectativa de aceleração do turnaround.
- No episódio “Get Low”, o título caiu 6,5% quando o tema de transparência/qualidade se disseminou.
- No anúncio da proxy fight de Wilson, as ações fecharam em alta de cerca de 2% nesse dia.
Em termos de valuation relativo, foi citado um P/E forward de 16,37x para a Lululemon, comparado com Gap (11,88x) e American Eagle (16,81x).
Leitura estratégica: o múltiplo sugere que o mercado ainda atribui à Lululemon um “prémio de marca” e alguma opcionalidade de recuperação, mas esse prémio fica vulnerável se a empresa não conseguir demonstrar rapidamente (i) cadência de inovação e (ii) ausência de incidentes de qualidade em categorias-chave.
6) O que monitorizar a seguir (gatilhos de curto e médio prazo)
Sem recorrer a cenários especulativos, há um conjunto claro de marcos que condiciona o “equity story” em 2026:
- Decisão de CEO permanente: a nomeação (e o mandato) será o principal sinal de direção estratégica e de força do conselho.
- Desfecho da proxy fight / assembleia anual de 2026: aceitação (total ou parcial) de novos administradores pode mudar prioridades e acelerar uma agenda de produto-first.
- Evidência de execução no produto: menos falhas “visíveis” e mais lançamentos bem recebidos, sobretudo em bottoms femininos e linhas com apelo Gen Z.
- Sinais de agilidade operacional: qualquer movimento para encurtar ciclos e aumentar responsividade (sem comprometer a proposta técnica) será interpretado como uma resposta direta ao problema identificado.
Conclusão
A Lululemon entra em 2026 num ponto de elevada sensibilidade estratégica: a marca mantém reconhecimento e escala, mas a combinação de queda pronunciada da ação desde o pico de final de 2023, pressão ativista (Elliott), contestação do fundador (proxy fight) e incidentes de produto (como o caso “Get Low”) reforça a ideia de que o turnaround tem de ser rápido e tangível.
O mercado está a dar sinais claros de como avalia a narrativa: premia catalisadores de mudança (subidas com Elliott e com a disputa pelo board) e penaliza falhas de qualidade que fragilizam o posicionamento premium. A próxima fase dependerá menos de promessas e mais de execução: liderança credível, produto com novidade e consistência técnica, e governance capaz de estabilizar a empresa enquanto reconstrói relevância junto de consumidores mais jovens.
Visite o Disclaimer para mais informações.
Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Lululemon, formato “News”, atualizado com informações até 20 de Fevereiro de 2026. Categoria: Consumo. Classe de Ativos: Ações. Tags: Acionista, Canadá, Lululemon, Consumo, Vestuário)