Ocado e Kroger: reconfiguração estratégica nos EUA expõe limites do modelo e redefine o horizonte de crescimento
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Strategic Highlights – 05 dezembro 2025
- Kroger vai encerrar três centros automatizados desenvolvidos com a Ocado nos EUA em janeiro de 2026, por não terem cumprido expectativas financeiras.
- A decisão implica uma queda de cerca de 50 milhões USD nas receitas de fees da Ocado em 2026, parcialmente compensada por uma indemnização única entre 250–350 milhões USD.
- O plano inicial de 20 centros automatizados acordado em 2018 foi significativamente reduzido: apenas oito entraram em operação, dos quais três serão encerrados.
- O mercado reagiu com elevada volatilidade: a ação da Ocado caiu 17% em 18 de novembro, mas recuperou cerca de 6% em 5 de dezembro após o anúncio da compensação.
- A Ocado reafirma como prioridade estratégica atingir cash flow positivo em 2026, apostando em disciplina de custos e na evolução do seu portefólio tecnológico.
Nota de Contexto
A Ocado Group é simultaneamente um retalhista online de mercearias no Reino Unido (através da joint venture Ocado Retail com a Marks & Spencer) e um fornecedor global de tecnologia de automação logística para grandes retalhistas alimentares. O seu modelo internacional assenta na venda de soluções de centros de fulfilment altamente automatizados, gerando receitas recorrentes de tecnologia e capacidade. A parceria com a Kroger, maior cadeia de supermercados dos EUA, era considerada o pilar central da sua tese de crescimento internacional.
Evolução cronológica: de revisão estratégica a retração operacional
A inflexão na narrativa começou a tornar-se clara em setembro de 2025, quando a Kroger anunciou uma revisão “site-by-site” da sua rede automatizada de comércio eletrónico. O novo chairman e CEO interino, Ron Sargent, sinalizou uma mudança de foco, sublinhando a necessidade de maior eficiência e um maior recurso ao fulfilment a partir de lojas existentes, em detrimento de grandes centros centralizados.
Este tom cauteloso traduziu-se rapidamente em mercado: em 12 setembro, as ações da Ocado caíram 13%, refletindo receios de que a Kroger estivesse a reavaliar o investimento num dos principais motores do crescimento esperado da empresa.
A confirmação desses receios surgiu em 18 de novembro de 2025, quando a Kroger anunciou o encerramento de três dos oito centros automatizados em operação (localizados em Maryland, Wisconsin e Florida). A reação foi severa:
- A ação da Ocado caiu 17,4% num único dia, acumulando perdas superiores a 40% em 2025.
- A empresa confirmou que as receitas de fees cairiam cerca de 50 milhões USD em 2026.
- Analistas colocaram em causa a escalabilidade do modelo fora de áreas urbanas densas e afluentes.
Nos dias seguintes, análises editoriais reforçaram a leitura estrutural do problema: o mercado endereçável da Ocado nos EUA poderá ser mais limitado do que o inicialmente projetado, dado que vários centros subperformaram em regiões menos densas.
A compensação financeira e a tentativa de estabilização da narrativa
Em 05 dezembro de 2025, a Ocado anunciou que receberá uma indemnização única de cerca de 350 milhões USD, a pagar em janeiro de 2026, associada ao cancelamento de capacidade futura por parte da Kroger. Este valor é superior às estimativas iniciais de mercado (acima de 250 milhões USD) e funcionou como um amortecedor financeiro relevante.
Adicionalmente:
- A Kroger cancelou definitivamente o centro planeado para Charlotte, mas confirmou que o projeto de Phoenix seguirá em frente em 2026, incorporando tecnologia mais recente da Ocado, incluindo soluções de congelação automatizada.
- As ações da Ocado subiram cerca de 6% no dia do anúncio, reduzindo parcialmente as perdas acumuladas.
A empresa aproveitou o momento para reiterar que a relação com a Kroger não está terminada, mantendo-se cinco centros em operação e existindo discussões em curso sobre automação baseada em loja, alinhada com modelos de entrega mais rápida.
Mudança estrutural no modelo de entrega alimentar
Um dos elementos centrais desta reavaliação é a crescente preferência da Kroger, e de outros retalhistas, por modelos de entrega rápida e de menor intensidade de capital, suportados por parcerias com plataformas como Instacart, DoorDash e Uber Eats. Estes modelos privilegiam:
- Entregas no próprio dia ou em poucas horas.
- Uso da infraestrutura de lojas existentes.
- Menor risco de capital face a grandes centros centralizados.
Vários analistas destacam que a automação continuará a ser relevante, mas de forma mais seletiva, exigindo um equilíbrio entre eficiência e velocidade. Neste contexto, a tecnologia da Ocado poderá encontrar maior tração em soluções modulares ou híbridas, em vez de grandes instalações dedicadas.
Impacto financeiro e avaliação implícita
Do ponto de vista financeiro imediato, o choque é gerível, mas estruturalmente relevante:
- A perda de 50 milhões USD em receitas anuais representa cerca de 7% das vendas recorrentes de tecnologia, segundo estimativas citadas por analistas.
- A compensação mitiga o impacto de curto prazo, mas não substitui crescimento recorrente.
- Após a queda acentuada da ação, a Ocado passou a negociar a múltiplos mais próximos de um retalhista tradicional do que de uma empresa tecnológica de elevado crescimento, contrastando com a valorização observada durante o período da pandemia.
Perspetivas estratégicas: contenção, adaptação e foco no cash flow
Perante este enquadramento, a estratégia da Ocado parece estar a entrar numa fase de realismo operacional. A empresa reafirma como objetivo central atingir cash flow positivo em 2026, sustentado por:
- Crescimento mais disciplinado dos projetos em operação.
- Controlo rigoroso de custos e investimento.
- Evolução da oferta tecnológica para responder a modelos de entrega mais imediatos.
A Ocado Retail no Reino Unido continua a ser apresentada como um ponto forte, funcionando como montra operacional da tecnologia e contribuindo para a credibilidade do grupo junto de parceiros internacionais.
Conclusão
A retração da Kroger marca um ponto de viragem estrutural na história de investimento da Ocado. Embora o impacto financeiro imediato seja amortecido pela indemnização, o episódio expõe os limites do modelo de grandes centros automatizados em mercados dispersos e altamente competitivos. O desafio estratégico passa agora por adaptar a proposta tecnológica a um ecossistema de entregas mais rápido, flexível e menos intensivo em capital. O sucesso dessa transição será determinante para restaurar a confiança do mercado e sustentar a ambição de alcançar cash flow positivo em 2026.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Ocado, formato “News”, atualizado com informações até 05 de Dezembro de 2025. Categoria: Consumo. Classe de Ativos: Ações. Tags: Acionista, Reino Unido, Ocado, Consumo)