Reino Unido: crescimento irregular, consumo resiliente e mercado de trabalho a arrefecer num quadro ainda “sensível” para o BoE
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com o Reino Unido. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos da atividade económica mais relevantes que impactam esta economia e mundo, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 20 janeiro 2026
- A economia britânica alternou fraqueza e recuperação: após contração de -0,1% em outubro (e -0,1% nos três meses até outubro), o PIB avançou +0,3% m/m em novembro, a leitura mensal mais forte desde junho.
- O mercado de trabalho deteriorou-se: a taxa de desemprego manteve-se em 5,1% (máximo desde janeiro 2021) e o emprego “payrolled” registou quedas sucessivas, incluindo -43 mil em dezembro (a maior desde novembro 2020) e revisão de novembro para -33 mil.
- As pressões salariais abrandaram: o crescimento salarial regular desacelerou para 4,5% e a remuneração do setor privado (excl. bónus) abrandou para 3,6%, mínimo desde novembro 2020, um sinal potencialmente desinflacionista para o BoE.
- A atividade captada por inquéritos manteve-se frágil e desigual: serviços PMI 51,4, industrial PMI 50,6, mas construção PMI 40,1, com habitação em forte contração (33,5).
- A procura das famílias mostrou resistência, mas com “trade-offs”: consumo em alta e crédito ao consumo +2,08 mil milhões £ em novembro (máximo em 2 anos), enquanto a poupança desceu para 9,5% no 3.º trimestre sob pressão de impostos e inflação.
Nota de Contexto
A economia do Reino Unido entrou no final de 2025 e início de 2026 num regime de crescimento baixo, com elevada sensibilidade a três vetores: (i) a procura interna (consumo e mercado imobiliário), (ii) a evolução do mercado de trabalho e dos salários, peça central para a inflação doméstica e (iii) o enquadramento orçamental após os aumentos de impostos anunciados no orçamento de 26 novembro 2025. Neste contexto, o Bank of England (BoE) reduziu a taxa diretora para 3,75% em dezembro (de 4%), mas mantém o ritmo de cortes condicionado pela inflação de serviços e pela persistência salarial.
1) Crescimento: de “quase estagnação” a recuperação pontual em novembro
Os dados oficiais mostram um perfil de crescimento descontínuo, mais compatível com economia a “rastejar” do que com aceleração sustentável.
No 3.º trimestre de 2025, o PIB foi confirmado em +0,1% t/t, com revisão em baixa do 2.º trimestre para +0,2% (antes +0,3%), reforçando a narrativa de desaceleração após um início de ano mais forte.
Mais perto do final do ano, os dados sublinharam o “buraco” pré-orçamento:
- -0,1% nos três meses até outubro, contra expetativas de estabilidade.
- Em outubro, o PIB caiu -0,1% m/m, e os serviços recuaram -0,3%, com referência a dificuldades no retalho.
A recuperação em novembro foi, porém, forte face ao padrão recente:
- PIB +0,3% m/m (vs consenso +0,1%), com impulso relevante de produção automóvel após normalização na Jaguar Land Rover.
Do ponto de vista estratégico, a leitura de novembro reduz o risco imediato de “hard landing”, mas não elimina o problema central: a economia continua dependente de fatores pontuais e permanece vulnerável a choques de confiança e custo de financiamento.
2) Consumo e rendimentos: resiliência com menos poupança e mais recurso a crédito
A procura das famílias manteve-se mais firme do que seria expectável num quadro de crescimento fraco, mas com sinais de desgaste.
No 3.º trimestre:
- O rácio de poupança caiu para 9,5% (mínimo em mais de um ano), com os rendimentos disponíveis reais pressionados por aumentos de impostos e inflação.
- Ainda assim, o consumo subiu +0,3% t/t, o avanço trimestral mais rápido em um ano.
Já em novembro, o recurso a financiamento cresceu:
- O crédito ao consumo aumentou +2,08 mil milhões £, o maior salto desde novembro 2023, elevando o crescimento anual do crédito ao consumo para 8,1% (máximo desde maio 2024).
Este padrão é ambivalente: por um lado, mostra que o consumo não colapsou com o ruído orçamental; por outro, sugere que a resiliência pode estar a ser “comprada” com menor poupança e maior alavancagem das famílias — um mix menos saudável se o mercado de trabalho continuar a enfraquecer.
3) Mercado de trabalho e salários: abrandamento que ajuda o BoE, mas aumenta o risco macro
O mercado de trabalho está a perder tração de forma visível, com duas implicações diretas: alívio gradual das pressões inflacionistas domésticas (via salários) e aumento do risco de desaceleração do consumo.
Principais sinais:
- Taxa de desemprego em 5,1%, a mais alta desde janeiro 2021 (mantida na leitura mais recente).
- Emprego “payrolled”: -43 mil em dezembro (maior queda desde novembro 2020) e revisão de novembro para -33 mil.
- Salários: crescimento regular abrandou para 4,5%, e no setor privado (excl. bónus) para 3,6%, mínimo desde novembro 2020.
Há um elemento de estabilização parcial:
- As vagas subiram +10 mil para 734 mil em dezembro, sugerindo alguma disposição para contratar.
Para o BoE, o abrandamento salarial é uma “boa notícia” porque reduz o risco de persistência inflacionista via serviços. Para a economia real, a mesma dinâmica tende a limitar a capacidade de o consumo acelerar em 2026, especialmente se o crédito estiver a substituir rendimento disponível.
4) Inquéritos de atividade: serviços e setor industrial em expansão marginal; construção em recessão profunda
Os PMIs desenham uma economia desequilibrada: alguma expansão marginal nos serviços e no setor industrial, mas um colapso prolongado na construção — frequentemente um indicador sensível a taxas de juro e confiança.
- Serviços (dezembro): 51,4, abaixo do “flash” 52,1, com referência a pressões de custos a acelerarem e preços cobrados a subirem ao ritmo mais rápido desde agosto.
- Composto (dezembro): 51,4, ligeiramente acima de novembro, mas também abaixo do “flash”.
- Setor industrial (dezembro): 50,6, o melhor em 15 meses, ainda assim sustentado em parte por “stock-building” e com confiança a recuar.
- Construção (dezembro): 40,1, 12.º mês consecutivo de contração, a sequência mais longa desde a crise financeira global; o subíndice residencial caiu para 33,5 (mais fraco desde maio 2020).
Este contraste é relevante para a leitura macro: mesmo com PIB a surpreender positivamente num mês, os inquéritos sugerem que a economia continua a operar com baixa confiança e com setores (construção e habitação) a funcionar como travão persistente.
5) Habitação e crédito: arrefecimento de preços e sinais mistos no “pipeline”
O mercado imobiliário mostra desaceleração clara nos preços, com algum alívio de acessibilidade, mas sem condições para uma recuperação rápida se o mercado de trabalho enfraquecer.
- Halifax: preços subiram apenas +0,3% a/a em dezembro (mais fraco desde março 2024) e caíram -0,6% m/m.
- A acessibilidade melhorou, com o rácio preço/rendimento no nível mais baixo em mais de uma década (interpretação baseada em condições de taxas e crescimento moderado de preços).
- Dispersão regional: Londres -1,3% a/a vs Irlanda do Norte +7,5% a/a.
- Aprovações de hipotecas para compra: 64 530 em novembro (ligeira descida face a 65 010 em outubro).
A mensagem para 2026 é de “normalização lenta”: com o BoE a cortar taxas de forma limitada e o emprego a deteriorar-se, a habitação tende a oscilar entre suporte (taxas mais baixas) e pressão (confiança e rendimento).
6) Política monetária: cortes mais lentos, porque a inflação de serviços ainda “morde”
O BoE já iniciou cortes, 3,75% em dezembro, mas o próprio conjunto de dados aponta para uma restrição persistente no ritmo de flexibilização:
- Os PMIs sugerem aumento de custos e maior capacidade de repasse para preços nos serviços, precisamente o segmento que o BoE acompanha com maior atenção.
- Por outro lado, o arrefecimento salarial e o abrandamento do emprego favorecem a tese de desinflação gradual, reduzindo a necessidade de manter uma postura demasiado restritiva durante muito tempo.
O mercado, perante este equilíbrio, posicionou-se para 1–2 cortes adicionais ao longo de 2026, com expectativa de manutenção no curto prazo.
7) O pano de fundo externo e fiscal: desaceleração, impostos e saldo externo
O enquadramento fiscal continua a ser parte do problema de confiança e de rendimento disponível. No final de 2025, manteve-se a leitura de que aumentos de impostos e incerteza pré-orçamento pesaram sobre a atividade, sobretudo em serviços e construção.
No setor externo, houve uma melhoria relativa:
- Défice da conta corrente no 3.º trimestre em 12,1 mil milhões £ (cerca de 1,6% do PIB), abaixo do que era antecipado por consenso, com revisões estatísticas a alterarem a leitura de rendimentos de investimento.
Embora positivo, este ponto não altera o essencial: o motor de curto prazo continua a ser a procura interna e a dinâmica do mercado de trabalho.
Conclusão
O quadro macro do Reino Unido no virar de 2025 para 2026 é o de uma economia a oscilar entre estagnação e recuperação pontual, com um “cimento” frágil: consumo ainda resiliente, mas sustentado por menor poupança e maior crédito; mercado de trabalho a enfraquecer, com desaceleração salarial que ajuda o BoE mas aumenta o risco de travão na procura; e uma dicotomia setorial em que serviços e setor industrial crescem marginalmente, enquanto a construção permanece em contração profunda.
Para a estratégia de mercado, o sinal mais importante é a combinação de salários a abrandar com pressões de preços nos serviços ainda presentes: isto aponta para um BoE a cortar, mas com prudência, um cenário que favorece volatilidade em ativos britânicos sempre que os dados de emprego/atividade surpreendam, e que mantém o crescimento de 2026 dependente de uma melhoria gradual da confiança e do custo de financiamento, sem “reaceleração” garantida.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Economia do Reino Unido, formato “Geral”, atualizado com informações até 20 de Janeiro de 2026. Categoria: Economia. Tags: Economia, PIB, Reino Unido, Inflação)