Sanofi enfrenta travão de curto prazo nas vacinas nos EUA e acelera consolidação no segmento com a compra da Dynavax
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Sanofi. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 14 Janeiro 2026
- O CEO Paul Hudson antecipou alguma fraqueza na procura de vacinas nos EUA em 2026, associada a desinformação e a maior escrutínio político.
- Os EUA removeram a recomendação universal para vacinas infantis contra gripe e três outras doenças, reduzindo o número de doenças com vacinação rotineira recomendada de 17 para 11.
- A Sanofi considera que a incerteza regulatória está a tornar mais atrativo o M&A em vacinas, com menos concorrência por ativos.
- A Sanofi acordou a compra da Dynavax por cerca de 2,2 mil milhões de dólares (≈ 1,9 mil milhões de euros), reforçando o portefólio com Heplisav-B (hepatite B em adultos) e um candidato promissor em herpes zoster.
- O pipeline em neurologia sofreu nova pressão com o tolebrutinib: segunda demora da FDA e falha em endpoints numa forma de esclerose múltipla, alimentando dúvidas sobre a diversificação para lá do Dupixent (patente até 2031).
Nota de Contexto
A Sanofi é um dos maiores grupos farmacêuticos europeus, com posições relevantes em imunologia, vacinas e terapias especializadas. A sua estratégia recente tem sido marcada por dois eixos: (i) proteger e prolongar a trajetória do Dupixent (principal motor de crescimento) e (ii) diversificar receitas com aquisições e reforço do pipeline. No segmento de vacinas, a Sanofi tem exposição estrutural a campanhas sazonais (nomeadamente gripe), o que torna o negócio sensível a taxas de cobertura, perceção pública e decisões de política de saúde.
Os dados operacionais mencionados referem-se ao 3.º trimestre de 2025 (trimestre civil).
1) Vacinas nos EUA: choque político, hesitação do consumidor e impacto de curto prazo
A mensagem central transmitida pela gestão em 14 janeiro 2026 foi clara: a Sanofi espera um abrandamento temporário na procura de vacinas nos EUA, não por fatores clínicos, mas por uma combinação de alterações institucionais e clima social.
A alteração mais material é a mudança no enquadramento de recomendações infantis. A passagem de um modelo de recomendações amplas para um modelo mais restritivo, de 17 para 11 doenças com vacinação rotineira recomendada, tende a reduzir o “efeito padrão” que impulsiona a adesão. Ao deslocar parte das vacinas para categorias como “alto risco” ou “decisão partilhada”, a probabilidade de adiamento aumenta: a decisão deixa de ser “rotina” e torna-se “opcional”, abrindo espaço a fricção comportamental e a ruído informacional.
Para a Sanofi, isto é particularmente relevante porque:
- a empresa já tinha sinalizado queda nas vendas de vacinas no 3.º trimestre (sem quantificação pública no detalhe referido);
- a exposição do portefólio a vacinas de elevada rotação (como gripe) amplifica o efeito de pequenas variações na cobertura;
- a visibilidade para 2026 é limitada (a empresa ainda não apresentou guidance para o ano), elevando a sensibilidade do mercado a qualquer comentário qualitativo sobre procura.
Ao mesmo tempo, a administração mantém uma leitura de médio prazo mais construtiva: a empresa espera estabilização com o tempo, assumindo que a evidência clínica e a normalização institucional se imponham ao ruído político.
2) Oportunidade “contracíclica” em M&A: porquê a incerteza pode favorecer a Sanofi
Um ponto estratégico importante é a forma como a Sanofi está a tentar transformar um choque regulatório num catalisador de consolidação. Segundo a gestão, a incerteza atual reduz a presença de investidores e compradores “de curto prazo”, o que tende a baixar a intensidade competitiva em processos de aquisição.
Em termos práticos, isto cria uma janela em que um operador com escala, capacidade regulatória e distribuição, como a Sanofi, pode comprar ativos:
- com menor competição de preço;
- com maior probabilidade de integração eficiente (cadeia de fornecimento, acesso comercial, negociação com pagadores);
- e com potencial de reposicionamento do portefólio para segmentos mais resilientes (por exemplo, vacinas para adultos e idosos).
A tese é especialmente relevante num momento em que o mercado de vacinas nos EUA enfrenta volatilidade e revisão de políticas: o risco afasta capital, mas pode beneficiar quem consegue gerir risco e financiar aquisições com balanço sólido.
3) Dynavax: reforço em vacinas de adultos e “ponte” de crescimento para além de 2030
A compra da Dynavax, anunciada a 24 dezembro 2025, é o movimento mais concreto desta estratégia. O acordo avalia a empresa em cerca de 2,2 mil milhões de dólares (≈ 1,9 mil milhões de euros), com pagamento de 15,50 dólares por ação (prémio de 39%). A Sanofi espera fechar a transação no 1.º trimestre de 2026, financiando-a com caixa disponível, e afirma que o acordo não altera o outlook financeiro de 2025.
Heplisav-B: ativo comercial com diferenciação operacional
O elemento mais imediato é o Heplisav-B, vacina de hepatite B para adultos, cuja proposta de valor se apoia num regime de administração mais simples:
- 2 doses em 1 mês, versus esquemas alternativos de 3 doses em 6 meses.
Em mercados reais, conveniência e adesão contam: regimes mais curtos tendem a melhorar “completion rates”, o que pode sustentar quota e eficiência comercial. Em termos de tração:
- vendas no 3.º trimestre de 2025: 90 milhões de dólares;
- expectativa de pico anual nos EUA: 609 milhões de dólares.
Z-1018 (herpes zoster): opcionalidade de longo prazo num mercado dominado
O segundo pilar é a vacina experimental Z-1018 contra herpes zoster. O racional é capturar uma fatia de um mercado onde o benchmark é extremamente forte: a Shingrix (GSK) está apontada para cerca de 4 mil milhões de euros de vendas anuais no ano referido. A Dynavax reportou dados iniciais em que o candidato gera resposta imunitária semelhante ao líder, com melhor perfil de segurança, se confirmado em ensaios maiores, abre a porta a:
- relevância comercial pós-2030;
- possibilidade de posicionamento em segmentos sensíveis a tolerabilidade (ex.: idosos, comorbilidades).
No conjunto, a compra da Dynavax funciona como:
- reforço imediato de receitas em vacinas de adultos;
- plataforma de inovação e pipeline em zoster;
- sinal ao mercado de que a Sanofi está disposta a usar M&A para reduzir a dependência do Dupixent antes de 2031.
4) Pipeline e credibilidade: tolebrutinib adiciona ruído ao caso de investimento
Enquanto o eixo de vacinas ganha tração estratégica, o pipeline em neurologia enfrenta um revés significativo com o tolebrutinib. Em 15 dezembro 2025, a Sanofi comunicou:
- segunda demora da FDA na decisão para uma indicação de esclerose múltipla, com expectativa de orientação adicional até ao final do 1.º trimestre de 2026;
- falha em demonstrar abrandamento da progressão da incapacidade em doentes com esclerose múltipla progressiva primária (estimada em ~10% dos casos).
Este duplo choque tem duas implicações principais:
- Risco regulatório acrescido: atrasos repetidos tendem a ser interpretados pelo mercado como aumento de exigência ou incerteza na avaliação.
- Risco de valor do pipeline: havia expectativas de pico de vendas de 1,4 mil milhões de euros para o ativo, colocando pressão sobre a narrativa de diversificação.
A reação bolsista sinalizou esse desconforto:
- queda de cerca de 2% no dia, com movimento intradiário mais negativo e uma descida anual de mais de 13% no período indicado.
5) Impacto de mercado: o “mix” de notícias e o que o investidor tende a precificar
O mercado está a olhar para a Sanofi através de duas lentes que competem entre si:
(i) Lente defensiva (vacinas sob pressão)
A mudança de política nos EUA introduz risco de curto prazo em volumes e cobertura. Mesmo que o impacto financeiro seja temporário, o mercado tende a penalizar:
- menor visibilidade para 2026 (sem guidance);
- risco reputacional e de adesão;
- volatilidade no segmento sazonal (gripe).
(ii) Lente estratégica (capacidade de execução via M&A)
O lado positivo é a leitura de que a Sanofi está a agir cedo para consolidar portefólio, com transações financiadas por balanço e reforço em vacinas de adultos, menos expostas às revisões do calendário infantil.
A compra da Dynavax foi recebida com forte reação no alvo:
- ações da Dynavax subiram cerca de 39%;
- ações da Sanofi recuaram ~0,7% no dia referido, sugerindo prudência do mercado quanto a integração, preço e contexto regulatório.
6) Perspetivas: o que pode mudar a narrativa em 2026–2028
Há três catalisadores que podem reorientar a perceção do mercado:
- Normalização da procura de vacinas nos EUA
Se a cobertura estabilizar e a hesitação diminuir, a tese de “fraqueza temporária” pode ser validada. A ausência de guidance torna qualquer indicação futura particularmente sensível. - Integração e performance dos ativos da Dynavax
A execução comercial do Heplisav-B e o avanço clínico do Z-1018 são cruciais. O mercado valorizará evidência de que a aquisição não é apenas defensiva, mas também geradora de crescimento. - Próxima vaga de inovação em vacinas combinadas
A Sanofi aponta 2027–2028 como janela para maior adoção de vacinas combinadas gripe–COVID, sobretudo em idosos. Se a indústria conseguir demonstrar conveniência, eficácia e boa aceitação, poderá criar um novo ciclo de procura, ajudando a suavizar a volatilidade sazonal.
Conclusão
A Sanofi entra em 2026 com uma tensão evidente entre curto prazo e estratégia. Do lado negativo, o ambiente político e regulatório nos EUA está a introduzir fricção na procura de vacinas, num momento em que a empresa ainda não oferece guidance para o ano e já vinha de uma queda nas vendas de vacinas no 3.º trimestre de 2025. Do lado positivo, a gestão está a aproveitar a incerteza para acelerar consolidação: a aquisição da Dynavax por 2,2 mil milhões de dólares reforça vacinas de adultos com receitas já visíveis (Heplisav-B) e adiciona opcionalidade de longo prazo em herpes zoster (Z-1018).
Para o investidor, a leitura mais útil é que a Sanofi está a tentar “comprar tempo” e “comprar crescimento” ao mesmo tempo: mitiga riscos de dependência do Dupixent antes de 2031, enquanto navega um ciclo político que pode penalizar volumes de vacinas no curto prazo. O teste decisivo em 2026 será a capacidade de provar que o choque de procura é transitório e que a diversificação via M&A se traduz em execução operacional e progressos clínicos mensuráveis.
Visite o Disclaimer para mais informações.
Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Sanofi, formato “News”, atualizado com informações até 14 de Janeiro de 2026. Categorias: Saúde. Tags: Acionista, Sanofi, Farmacêutica, França, Saúde)