Tesla: erosão no negócio automóvel expõe a aposta total de Musk em AI, autonomia e energia
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Tesla. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 06 Janeiro 2026
- A Tesla entregou cerca de 1,6 milhões de veículos em 2025, registando uma segunda queda anual consecutiva e ficando atrás da chinesa BYD, que vendeu mais de 2 milhões de veículos elétricos a bateria.
- No Reino Unido, as matrículas da Tesla caíram mais de 29% em dezembro e -8,9% em 2025, num mercado onde marcas chinesas como BYD e MG ganharam quota rapidamente; na Holanda, as matrículas recuaram 27% em dezembro.
- As estimativas apontam para receitas automóveis em 2026 cerca de 16% abaixo do pico, com margens brutas automóveis reduzidas para metade face a 2022, refletindo pressão competitiva, fim de subsídios e maturidade do mercado de EVs.
- A narrativa de investimento desloca-se do “carro como produto” para AI, condução autónoma e energia, com armazenamento de energia descrito como o segmento mais rentável e com procura adicional vinda de data centers.
- Apesar da deterioração do core automóvel, a Tesla negoceia a cerca de 376x os lucros estimados de 2025, implicando confiança extrema no sucesso das apostas futuristas de Elon Musk.
Nota de Contexto
A Tesla foi, durante anos, o “benchmark” do setor de veículos elétricos, combinando escala, integração vertical e vantagens de industrialização. Esse posicionamento permitiu-lhe concentrar uma fatia desproporcionada dos lucros globais de EVs. Em 2025–2026, contudo, o contexto mudou: concorrência chinesa, normalização tecnológica e pressão sobre preços reduziram a singularidade do negócio automóvel, empurrando a empresa para uma reavaliação estratégica centrada em software, AI e energia.
1) O fim do “Apple moment” do automóvel elétrico
A coluna Breakingviews de 5 janeiro 2026 sintetiza a viragem estrutural: “um Model S não é um iPhone”. Em 2022, a Tesla capturava praticamente todos os lucros do mercado de EVs, numa analogia direta com a Apple no auge do iPhone. Essa fase terminou.
Em 2025, as entregas totais desceram para cerca de 1,6 milhões (vs um pico de ~1,8 milhões em 2023), enquanto a BYD ultrapassou os 2 milhões de veículos elétricos vendidos. Esta inversão de liderança ocorre num momento em que:
- os subsídios aos EVs estão a ser reduzidos ou eliminados em vários mercados;
- o crescimento da procura abranda;
- vantagens industriais antes exclusivas (ex.: gigacasting) disseminaram-se pelo setor;
- infraestruturas proprietárias, como carregadores, deixaram de ser diferenciadoras.
Ao contrário da Apple, que perdeu quota mas manteve rentabilidade excecional, a Tesla vê a sua rentabilidade automóvel aproximar-se da média do setor, tornando o negócio mais “commoditizado”.
2) Europa como termómetro: pressão chinesa e desgaste do produto
Os dados europeus reforçam a leitura de perda de tração. No Reino Unido, as matrículas da Tesla caíram 29% em dezembro (para 6.323 unidades) e 8,9% no total de 2025, apesar de o mercado automóvel britânico ter crescido 3,5% para 2 milhões de registos o melhor nível desde a pandemia.
O contraste é marcado:
- as matrículas da BYD no Reino Unido subiram quase cinco vezes em dezembro (para 5.194 unidades);
- marcas chinesas MG e BYD figuraram entre as 10 mais vendidas no mês;
- a Tesla manteve-se líder em EVs no Reino Unido, mas com a distância a encurtar rapidamente.
A Reuters aponta ainda fatores qualitativos que pesam na Europa:
- linha de modelos envelhecida;
- posicionamento político de Elon Musk;
- intensificação da guerra de preços por novos entrantes chineses.
Na Holanda, a queda de 27% nas matrículas em dezembro confirma que o fenómeno não é isolado. A Europa surge, assim, como um mercado onde a Tesla deixa de “crescer por inércia”.
3) Margens e receitas: o problema estrutural do core automóvel
O enfraquecimento do volume traduz-se diretamente nos números financeiros esperados:
- as receitas automóveis em 2026 são estimadas 16% abaixo do máximo histórico;
- a margem bruta automóvel situa-se em cerca de metade do nível de 2022.
Isto reflete três dinâmicas combinadas:
- pressão de preços num mercado mais competitivo;
- custos fixos elevados num contexto de volumes estagnados ou em queda;
- desaparecimento do “pricing power” associado ao estatuto de pioneiro.
Neste contexto, a decisão de abandonar (ou adiar) um modelo mais acessível ganha outra leitura: não se trata apenas de foco estratégico, mas de um reconhecimento implícito de que fabricar automóveis é um negócio estruturalmente difícil, mesmo para um líder tecnológico.
4) A fuga para a frente: AI, condução autónoma e robótica
É aqui que a análise Breakingviews vê coerência na estratégia de Elon Musk. A aposta agressiva em AI, condução autónoma baseada em câmaras (em contraste com abordagens mais dependentes de sensores) e robótica (Optimus) representa uma tentativa de redefinir o que é um carro.
Se bem-sucedida, esta abordagem transformaria o veículo num ativo de software, com:
- receitas recorrentes;
- efeitos de rede;
- margens potencialmente muito superiores às da venda de hardware.
Mas o risco é elevado:
- a estratégia exige capacidade intensiva em AI, com custos significativos;
- o histórico de Musk privilegia experimentação rápida em detrimento de “polimento” incremental;
- a execução técnica e regulatória da autonomia total permanece incerta.
O mercado, contudo, parece disposto a pagar por esta opcionalidade.
5) Energia: o “negócio escondido” que ganha relevância
Um dos pontos mais concretos de diversificação é o segmento de armazenamento de energia, descrito como o mais lucrativo da Tesla.
Aqui, a empresa beneficia de:
- escala em baterias;
- integração com redes elétricas;
- procura crescente de data centers, que necessitam de soluções de estabilidade e armazenamento num contexto de consumo intensivo de eletricidade.
Este segmento liga a Tesla diretamente a tendências estruturais (AI, transição energética, resiliência das redes) e oferece uma narrativa de crescimento menos dependente do ciclo automóvel.
6) Valuation: fé absoluta no “futuro” de Musk
O ponto de maior tensão está na avaliação bolsista. A Tesla negoceia a cerca de 376x os lucros estimados de 2025, um múltiplo que não é compatível com um fabricante automóvel em maturidade.
Na prática, o mercado está a dizer que:
- o negócio automóvel já não é o “case”;
- a criação de valor virá de AI, software, energia e novos formatos de automação;
- falhar nessas frentes colocaria a avaliação sob pressão severa.
O paradoxo é claro: quanto mais fraco o core automóvel se torna, maior é a dependência do sucesso das apostas futuristas para justificar a capitalização atual.
Conclusão
Os documentos mostram uma Tesla em transição forçada. A perda de liderança em volumes, a compressão de margens e a pressão competitiva, especialmente da China, expõem os limites do modelo automóvel que sustentou a empresa na última década. Em resposta, Elon Musk dobra a aposta numa visão onde AI, autonomia e energia substituem o carro como centro da narrativa de valor.
Esta estratégia pode revelar-se visionária se transformar a Tesla numa plataforma tecnológica difícil de replicar. Mas, a curto e médio prazo, deixa a empresa desalinhada: um core em erosão a financiar uma opcionalidade altamente incerta, num contexto de valuation que assume sucesso quase total. Em 2026, a Tesla já não é avaliada como fabricante de automóveis é avaliada como aposta no futuro de Musk. Se esse futuro não se materializar, a margem de erro é mínima.
Visite o Disclaimer para mais informações.
Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Tesla, formato “News”, atualizado com informações até 06 de Janeiro de 2025. Categorias: Transporte. Classe de Ativos: Ações. Tags: Acionista, EUA, Tesla, Transporte, Veículos Elétricos)