Zona Euro: inflação chega a 2% e atividade surpreende pela resiliência, mas a Alemanha continua presa entre recuperação industrial e travão externo
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Zona Euro. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos da atividade económica mais relevantes que impactam esta economia e mundo, consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 09 Janeiro 2026
- A inflação na zona euro abrandou para 2,0% em dezembro (vs. 2,1% em novembro) e a inflação subjacente recuou para 2,3% (de 2,4%), aproximando-se do objetivo do ECB.
- O PMI composto final caiu para 51,5 em dezembro (de 52,8), mas o 4T25 fechou com média de 52,3, o melhor trimestre desde 2T23; serviços ficaram em 52,4.
- O PMI industrial final recuou para 48,8 em dezembro (de 49,6), com produção a voltar a contrair (subíndice 48,9) e emprego industrial a cair pelo 31.º mês consecutivo.
- As vendas a retalho da zona euro cresceram 0,2% m/m em novembro e 2,3% a/a, acima do esperado; na Alemanha a evolução foi mais fraca, enquanto Espanha manteve dinamismo e França também surpreendeu em alta.
- Na Alemanha, a produção industrial subiu 0,8% m/m em novembro e as encomendas saltaram 5,6% m/m, mas as exportações caíram 2,5% m/m e as vendas para os EUA recuaram 22,9% a/a, com o excedente comercial a estreitar para 13,1 mil milhões de euros.
Nota de Contexto
A zona euro entra em 2026 com um enquadramento raro: inflação muito próxima do objetivo do ECB (2%) e crescimento que, apesar de modesto, tem resistido melhor do que se antecipava ao choque de tarifas dos EUA e ao abrandamento do comércio global. O foco do ECB deslocou-se de “combate à inflação” para “gestão do risco de sub/sobre-aquecimento”, num contexto em que os preços podem ficar abaixo de 2% por períodos prolongados devido a energia, mas em que forças como despesa pública (defesa/infraestruturas), mercado de trabalho apertado e tensões geopolíticas podem reacender pressões. Na prática, o mercado lê este equilíbrio como compatível com taxas estáveis no curto prazo.
1) Inflação: “sweet spot” em 2%, com o risco a inclinar-se para leituras abaixo do alvo
O dado de dezembro consolida a narrativa de desinflação controlada: a inflação desceu para 2,0% e a subjacente para 2,3%. O motor mais evidente continua a ser a energia, que tem funcionado como travão para o headline, enquanto as pressões domésticas (serviços e bens industriais) perdem intensidade de forma gradual.
O quadro nacional reforça esta leitura: Alemanha caiu para 2,0% (de 2,6%), França para 0,7% (de 0,8%) e Espanha para 3,0% (de 3,2%). Este comportamento sugere que a zona euro pode entrar numa sequência de meses com inflação abaixo de 2%, sobretudo se energia se mantiver favorável.
Há, no entanto, dois “detalhes incómodos” que impedem um discurso de vitória total:
- Nos PMI, a inflação de custos (“input costs”) acelerou e, no caso industrial, atingiu máximos de 16 meses, em parte por renovadas fricções na cadeia de fornecimento (prazos de entrega mais longos).
- Nos serviços, as pressões de custos também voltaram a subir, e é precisamente a inflação de serviços que o ECB tende a observar com mais atenção.
Em síntese: a inflação está onde o ECB quer, mas a distribuição dos riscos continua assimétrica, é plausível ver headline abaixo de 2% durante algum tempo sem que isso implique automaticamente cortes, se o banco central considerar o fenómeno “energia-driven” e temporário.
2) Atividade: crescimento moderado, mas surpreendentemente consistente
Os inquéritos de dezembro mostram um abrandamento marginal do ritmo, não uma inversão. O PMI composto final recuou para 51,5, mas manteve-se confortavelmente acima de 50, confirmando expansão. Mais importante: o 4T25 fechou como o melhor trimestre desde 2023, sugerindo que o crescimento do PIB poderá ter acelerado na reta final de 2025.
O retrato setorial é familiar:
- Serviços continuam a ser o estabilizador (índice 52,4).
- O setor industrial permanece em contração (PMI 48,8), com deterioração da procura (novas encomendas a cair ao ritmo mais rápido em quase um ano) e fraqueza mais forte nas exportações.
Do lado do consumo, as vendas a retalho trouxeram uma nota construtiva: +0,2% m/m e +2,3% a/a em novembro, suportadas por revisões em alta de outubro. Isto é relevante porque sustenta a tese de que, em 2025, o consumo interno ajudou a preencher o buraco deixado por exportações mais fracas.
3) Crédito e condições financeiras: o mecanismo de transmissão está a funcionar
Os dados do ECB para novembro reforçam a ideia de normalização do crédito:
- Crédito a empresas: +3,1% (de 2,9%), máximo desde meados de 2023.
- Crédito a famílias: +2,9% (de 2,8%), máximo desde a primavera de 2023.
- M3: +3,0% (de 2,8%), acima do esperado.
Isto não aponta para um boom, mas é compatível com uma economia que ganhou tração suficiente para sustentar investimento e consumo num ritmo moderado. Para o ECB, é também um argumento contra a necessidade de estimular adicionalmente: o crédito está a acelerar sem sinais de desancoragem inflacionista.
4) Alemanha: sinais de estabilização interna, mas o motor externo continua a falhar
A Alemanha continua a ser o ponto de maior fragilidade estrutural da zona euro, e, ao mesmo tempo, a origem dos sinais mais interessantes de “inflection” cíclica.
Do lado positivo, há um conjunto coerente de dados:
- Produção industrial +0,8% m/m em novembro (3.º mês consecutivo de subida).
- Encomendas industriais +5,6% m/m, impulsionadas por grandes encomendas.
Estes números alimentam a ideia de que o pior da contração industrial pode ter ficado para trás, sobretudo se o impulso fiscal (defesa e infraestruturas) se materializar e se setores como construção reagirem a taxas mais baixas.
Do lado negativo, o “motor exportador” está sob pressão:
- Exportações -2,5% m/m em novembro.
- Exportações para os EUA -22,9% a/a, num contexto de tarifas norte-americanas sobre bens europeus.
- Excedente comercial a estreitar para 13,1 mil milhões de euros (de 17,2 mil milhões).
No mercado de trabalho, a deterioração é lenta, mas persistente:
- Desemprego em dezembro: +3.000 (ajustado sazonalmente), com taxa a 6,3%.
- Média anual de desempregados em 2025: 2,948 milhões, o valor mais alto em 12 anos, com 2026 descrito como ano “desafiante”.
- Apesar disso, mantém-se escassez de mão de obra qualificada e prevê-se que a força de trabalho caia em 40.000 pessoas em 2026 por razões demográficas, um travão estrutural ao potencial.
A conclusão é desconfortável: a Alemanha pode estar a estabilizar por dentro, mas continua vulnerável ao exterior e a desafios estruturais. Isso limita a velocidade a que o consumo privado pode recuperar e reduz a probabilidade de uma aceleração forte e sustentada do bloco.
5) Política monetária: ECB confortável, mas não “commitado” a uma trajetória rígida
Com inflação em 2% e crescimento moderado, o ECB está num ponto em que a opção default é manter. O mercado interpreta o enquadramento como consistente com uma taxa de depósito em 2% ao longo de 2026, salvo surpresa material.
O ECB enfrenta forças em sentidos opostos:
- Forças desinflacionistas: energia mais barata, euro mais forte, importações chinesas mais baratas, moderação salarial, fraqueza industrial.
- Forças inflacionistas: despesa pública (defesa/infraestruturas), mercado de trabalho ainda apertado em vários países, riscos geopolíticos.
É por isso que o ECB tende a resistir a compromissos longos. Se a inflação cair “demasiado” e houver sinais de subidas fracas de salários e procura, o debate de cortes pode regressar. Mas, com a economia a aguentar-se e o crédito a acelerar, o cenário central permanece de espera vigilante.
Implicações de mercado: obrigações suportadas, mas risco de “reaceleração” via fiscal e energia
Para taxas e spreads europeus, o mix atual é, em geral, favorável:
- Inflação em torno de 2% suporta a parte longa e reduz prémio de inflação.
- Crescimento moderado reduz risco de stress macro extremo, mas também limita re-rating de lucros cíclicos.
O principal risco para o mercado de obrigações não é uma recessão iminente; é uma combinação de impulso fiscal (sobretudo Alemanha) e eventual normalização de energia/geopolítica, que poderia voltar a empurrar preços para cima e alongar o período de taxas restritivas.
Conclusão
A zona euro começa 2026 num equilíbrio raro: inflação no alvo e atividade resiliente, ainda que longe de exuberante. O consumo e o crédito mostram sinais consistentes de normalização, e os inquéritos sugerem que o crescimento do 4T25 foi o melhor em mais de dois anos. Ao mesmo tempo, o setor industrial permanece em contração e a Alemanha continua dividida entre sinais de estabilização interna e um travão externo evidente via exportações.
Para o ECB, o cenário é confortável: manter taxas parece a opção mais provável enquanto a inflação se mantiver próxima de 2% e o crédito continuar a acelerar. O risco dominante no curto prazo inclina-se para leituras abaixo do alvo, mas o banco central só deverá reagir se isso ameaçar tornar-se persistente. Para 2026, a mensagem é clara: crescimento modesto, inflação controlada e elevada dependência do binómio energia–geopolítica e do impulso fiscal alemão.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Economia da Zona Euro, formato “Geral”, atualizado com informações até 22 de Outubro de 2025. Categoria: Economia. Tags: Economia, PIB, Zona Euro, Inflação)