Café, News – 10 Set 26

Café: escassez imediata sustenta o arábica, mas normalização da oferta limita a extensão do prémio


Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com o Café. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta commodity e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.


Strategic Highlights

  • O mercado de arábica permanece condicionado por uma escassez física imediata, com os stocks certificados na ICE a recuarem de cerca de 330 mil sacos no final de julho para 242.673 sacos em 11 de agosto de 2026, o nível mais baixo desde o final de 2023, reforçando a procura por café disponível para entrega.
  • No Brasil, a colheita continuou a avançar, mas de forma irregular e com atrasos face ao ano anterior em algumas referências: a Cooxupé reportava 81,1% da colheita concluída em 14 de agosto, abaixo dos 86,1% na mesma altura de 2025, enquanto produtores permaneciam pouco pressionados para vender.
  • O sismo de 7,4 na Colômbia gerou uma disrupção logística relevante, sobretudo em Buenaventura, por onde passa cerca de 60%–70% das exportações colombianas, mas o choque revelou-se predominantemente temporário: em 21 de agosto, os fluxos de exportação já tinham regressado à normalidade.
  • O principal risco passou progressivamente da logística para o clima. A Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia prevê que a produção de 2026 recue 8%, para 12,5 milhões de sacos de 60 kg, face a 13,7 milhões em 2025, atribuindo a pressão às chuvas anteriores e ao desenvolvimento do El Niño.
  • A volatilidade reflete esta tensão entre oferta física curta e perspetivas de maior disponibilidade futura: o arábica passou de US$ 3,138/lb em 24 de julho para US$ 3,394/lb em 28 de julho, recuou para US$ 3,128/lb em 13 de agosto, voltou a testar máximos de um mês e terminou 21 de agosto em US$ 3,2265/lb, ainda com uma valorização semanal de 2,6%.

Nota de Contexto

Entre o final de julho e 21 de agosto de 2026, o mercado internacional de café entrou numa fase de elevada sensibilidade a qualquer perturbação da oferta. O elemento dominante foi a escassez de café certificado disponível na ICE, num contexto em que a colheita brasileira avançava mas não se traduzia imediatamente numa disponibilidade equivalente para o mercado, enquanto a Colômbia enfrentou primeiro um choque logístico causado pelo sismo e, posteriormente, uma preocupação mais estrutural com o impacto do El Niño. O resultado foi um mercado sustentado por tensão física no curto prazo, mas simultaneamente limitado pela expectativa de que a progressão das colheitas e uma eventual normalização dos fluxos comerciais possam aliviar parte dessa pressão.

Análise Estratégica

1. Stocks certificados transformaram a disponibilidade imediata no principal suporte do arábica

O movimento mais consistente ao longo do período analisado foi a redução dos stocks certificados de arábica. Em 24 de julho, os stocks ICE situavam-se em 311.317 sacos, abaixo de 332.945 uma semana antes e muito aquém dos 806.232 sacos observados no mesmo período de 2025. Nos dias seguintes, a contração acelerou: 292.810 sacos em 27 de julho, 289.759 em 28 de julho, 274.168 em 29 de julho e apenas 266.204 em 30 de julho. Em 11 de agosto, o total tinha descido para 242.673 sacos de 60 kg, o nível mais baixo desde o final de 2023.

Esta contração alterou a estrutura do mercado. No final de julho, a backwardation do arábica já era descrita como a segunda mais acentuada desde março de 1997, evidenciando o prémio atribuído ao café disponível no imediato. A questão central deixou, por isso, de ser apenas a dimensão agregada da próxima colheita e passou a ser a localização, certificação e disponibilidade física do produto certo no momento certo. Mesmo estimativas relativamente elevadas para a produção brasileira, entre 66,7 e 75,4 milhões de sacos numa das referências apresentadas, não eliminaram a tensão porque essa produção potencial não se converteu de forma imediata em stocks certificados.

A escassez física explica também porque o arábica conseguiu reagir de forma tão intensa a notícias incrementais. Entre 24 e 28 de julho, o contrato passou de US$ 3,138/lb para US$ 3,394/lb, apesar de a colheita brasileira estar em curso. A amplitude do movimento mostra que, enquanto os stocks certificados continuarem deprimidos, pequenas alterações nas expectativas de disponibilidade podem produzir respostas de preço desproporcionais.

2. Brasil: a colheita avança, mas disponibilidade, qualidade e comportamento dos produtores continuam a importar

O Brasil apresentou sinais mistos. Por um lado, a colheita avançou de forma significativa ao longo do período. A Cooxupé indicava 58,3% da colheita concluída em 24 de julho, contra 47,3% na semana anterior, mas ainda abaixo dos 67,1% registados um ano antes. Em 7 de agosto, a cooperativa reportava 74,6%, face a 80,4% em 2025, e em 14 de agosto o avanço atingia 81,1%, ainda inferior aos 86,1% do ano anterior. Uma estimativa distinta, da Safras & Mercado, apontava para 90% da colheita brasileira de 2026/27 concluída em 12 de agosto, evidenciando que diferentes universos de medição podiam apresentar estágios distintos do processo.

Por outro lado, o avanço da colheita não significou necessariamente maior pressão de venda. No final de julho, a volatilidade elevada já levava produtores a adiar negócios. Em agosto, essa postura manteve-se: depois de cobrirem grande parte dos custos da colheita, vários produtores mostravam menor urgência em vender e preferência por reter parte da produção. O rally de preços chegou a estimular alguma comercialização, mas não ao ponto de eliminar a tensão.

A qualidade acrescenta outra camada de incerteza. As chuvas em regiões produtoras foram associadas a atrasos na colheita e, posteriormente, a preocupações com a qualidade do café premium. Isto significa que um aumento do volume total disponível pode coexistir com escassez em segmentos específicos. Para o arábica de maior qualidade, esta diferenciação é particularmente importante: não basta uma colheita volumosa se a composição e a qualidade não corresponderem à procura física.

3. Colômbia: o choque do sismo foi relevante, mas o risco estrutural deslocou-se para o El Niño

O sismo de magnitude 7,4, ocorrido em 10 de agosto, atingiu regiões centrais da produção colombiana e provocou deslizamentos, danos em estradas, habitações e instalações de processamento. Buenaventura, responsável por cerca de 60%–70% das exportações colombianas de café, chegou a suspender temporariamente operações e ficou impossibilitada de receber novos contentores carregados para exportação. Um dos principais moinhos de processamento em Armenia também sofreu danos estruturais e mecânicos.

No pico da incerteza, o mercado chegou a trabalhar com um horizonte de aproximadamente 15 dias para normalização dos fluxos. A interrupção era especialmente sensível porque a Colômbia é um fornecedor importante de arábica lavado e representa cerca de um quarto do café consumido nos Estados Unidos. A redução temporária dos embarques reforçou a procura por origens alternativas, nomeadamente o Brasil, num momento em que a própria disponibilidade brasileira permanecia apertada.

Contudo, até 21 de agosto a leitura tinha mudado. As exportações através de Buenaventura tinham regressado à normalidade e a Federação Nacional dos Cafeicultores indicava que a produção não fora materialmente afetada pelo sismo. O risco dominante passou a ser climático. A instituição estima produção colombiana de 12,5 milhões de sacos de 60 kg em 2026, uma redução de 8% face aos 13,7 milhões de 2025, associada às fortes chuvas no início do ano e ao desenvolvimento do El Niño. Acresce a pressão cambial: a valorização do peso colombiano, para o nível mais forte desde outubro de 2018, estava a reduzir margens dos produtores, com uma perda estimada em cerca de 700.000 pesos por carga de 125 kg devido ao efeito cambial.

4. El Niño amplia a assimetria entre alívio imediato e risco para a próxima produção

À medida que o choque colombiano se dissipou, o El Niño tornou-se o principal fator de risco transversal. No Brasil, o fenómeno é associado a potenciais impactos na produção e na qualidade; na Colômbia, já é apontado como o principal risco para a próxima colheita; e no Vietname, embora a perspetiva para 2026/27 admita alguma recuperação, os intervenientes alertam que a ameaça do El Niño não deve ser subestimada. Uma estimativa para o Vietname apontava para 31,3 milhões de sacos, abaixo dos 32,1 milhões do ano anterior.

Esta combinação cria uma assimetria importante. O mercado pode beneficiar, no curto prazo, da conclusão da colheita brasileira, da normalização dos fluxos colombianos e de maior disponibilidade sazonal. Mas o risco climático impede que essa normalização seja interpretada automaticamente como uma transição para abundância. O episódio de julho e agosto mostrou precisamente que a disponibilidade física pode permanecer apertada mesmo quando as expectativas de produção agregada parecem confortáveis.

Market Implications

A principal implicação é que o arábica continua num regime de volatilidade elevada e sensível à oferta imediata. Os preços recuaram depois de movimentos rápidos de subida, mas a persistência de stocks certificados historicamente baixos limita a capacidade do mercado para absorver novos choques sem voltar a incorporar um prémio relevante. A passagem de US$ 3,394/lb em 28 de julho para US$ 3,128/lb em 13 de agosto, seguida de uma recuperação para máximos de um mês e novo recuo para US$ 3,2265/lb em 21 de agosto, evidencia um mercado sem uma tendência linear, em que cada nova informação altera a avaliação do equilíbrio físico.

O elemento que pode limitar uma reavaliação estrutural em alta é a progressiva normalização da oferta brasileira e colombiana. O próprio mercado recebeu indicações de que, apesar dos stocks baixos, a disponibilidade global poderá melhorar à medida que café novo entra no circuito comercial. Porém, esta leitura permanece condicionada por três variáveis: a velocidade efetiva de venda dos produtores brasileiros, a qualidade do café disponibilizado e o desenvolvimento do El Niño.

Para os participantes de mercado, a distinção entre escassez física de curto prazo e equilíbrio agregado da próxima campanha é, por isso, essencial. O primeiro continua favorável ao preço; o segundo oferece potencial de normalização. Enquanto estas duas forças permanecerem em conflito, o cenário mais consistente é o de elevada sensibilidade a notícias sobre stocks, clima, colheitas e fluxos de exportação, com movimentos amplificados por uma base física estreita.

Conclusão

O mercado de café chegou ao final de agosto de 2026 sustentado por uma combinação de stocks certificados excepcionalmente baixos, disponibilidade física limitada e incerteza climática, mas sem uma deterioração uniforme da oferta global. O choque logístico colombiano revelou-se transitório e a colheita brasileira continuou a avançar, reduzindo parte do risco imediato. Ainda assim, a lenta comercialização no Brasil, os problemas de qualidade em algumas regiões e, sobretudo, o fortalecimento do El Niño mantêm uma assimetria relevante para a próxima fase do ciclo. A evolução do arábica dependerá, assim, menos da dimensão teórica da produção e mais da capacidade de essa produção chegar ao mercado, com qualidade adequada e num ritmo suficiente para reconstruir stocks e reduzir o prémio associado à escassez física.


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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.

(Artigo sobre o Café, formato “News”, atualizado com informações até 09 de Setembro de 2026. Categoria: Agricultura. Classe de Ativos: Futuros. Tags: Mercadorias, Agricultura, Café, Brasil, Vietname)

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