Kraft Heinz: novo CEO chega para executar a cisão, mas o “risco saúde” e o desconto de mercado elevam a fasquia da transformação
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Kraft Heinz. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 16 Dezembro 2025
- A Kraft Heinz nomeou Steve Cahillane (60) como novo CEO, com entrada em funções a 1 janeiro 2026, substituindo Carlos Abrams-Rivera (que ficará como advisor até 6 março).
- Cahillane liderará a unidade de sauces and spreads após a cisão; o conselho vai iniciar uma pesquisa global para CEO da futura unidade de groceries.
- A cisão, anunciada em setembro, deverá estar concluída na segunda metade de 2026 e pretende reduzir complexidade operacional e aumentar foco num contexto de procura pressionada por incerteza económica.
- A narrativa de “turnaround” decorre sob um forte desconto de mercado: as ações perderam cerca de 75% desde o pico de 2017 (97,77 USD) e a empresa negocia a 9,73x P/E forward, abaixo de pares (ex.: PepsiCo 17,67x, Coca-Cola 22,04x, Mondelez 17,21x).
- Em paralelo, San Francisco processou a Kraft Heinz (e outras, incluindo Mondelez e Coca-Cola) por alegada crise de saúde pública ligada a alimentos ultraprocessados, elevando o risco reputacional e regulatório precisamente quando a empresa tenta reposicionar portefólio e estrutura.
Nota de Contexto
A Kraft Heinz é um grupo alimentar norte-americano assente em marcas “legacy” de grande escala (condimentos e categorias de mercearia), com uma base relevante em produtos considerados “processados”. Nos últimos anos, o setor tem enfrentado uma dupla pressão: (i) consumidores mais sensíveis a preço e com maior preferência por marcas brancas e alternativas menos processadas; (ii) um ambiente político e social mais agressivo sobre ingredientes e rotulagem, onde movimentos de saúde pública, e até a adoção crescente de terapêuticas de perda de peso (GLP-1), amplificam o escrutínio sobre portefólios de produtos tradicionais.
1) A cisão de 2026: simplificar para voltar a crescer, e para recontar a história ao mercado
A Kraft Heinz anunciou em setembro de 2025 que se vai dividir em duas empresas:
- uma focada em sauces and spreads (com marcas icónicas como Heinz ketchup, segundo o enquadramento do texto);
- outra focada em groceries (incluindo marcas como Oscar Mayer).
O objetivo é explícito: reduzir complexidade operacional e criar foco de gestão para acelerar execução num período em que inflação e incerteza económica comprimem a procura.
No detalhe, o mercado olha para a cisão como mais do que uma operação de eficiência: há analistas a sugerirem que pode ser precursora de uma eventual venda do negócio de condimentos (“taste elevation”). Mesmo sem confirmar cenários, esta leitura é relevante porque altera o “modelo mental” do investidor: a unidade de condimentos pode passar a ser avaliada como ativo potencialmente transacionável e, portanto, com uma disciplina de performance e posicionamento mais semelhante à de uma empresa “standalone” pronta para M&A.
Implicação: a cisão cria duas teses de investimento distintas, mas também exige uma narrativa clara sobre como cada unidade vai crescer organicamente num setor onde “crescer” se tornou mais difícil.
2) Steve Cahillane: escolha para reduzir risco de execução e acelerar foco na unidade “Taste Elevation”
A nomeação de Steve Cahillane para CEO, com início a 1 janeiro 2026, é apresentada como uma resposta direta ao desafio de execução da cisão. Cahillane liderou a Kellogg na separação de 2023 e era CEO da Kellanova até esta ser adquirida pela Mars; ou seja, chega com credenciais de reestruturação e foco de portefólio.
O desenho de governance também é importante:
- Cahillane será CEO do grupo e integrará o conselho;
- depois da cisão, ficará com a liderança da unidade de sauces and spreads;
- o conselho procura um CEO para a unidade de groceries.
Este arranjo sugere que o “núcleo de confiança” do board está concentrado na unidade que o mercado tende a ver como o ativo de maior qualidade e, possivelmente, mais “investor-ready”. O comentário citado na Reuters reforça essa leitura ao referir que o currículo de Cahillane aponta para um board a tentar reduzir risco de execução e tornar a unidade “Taste Elevation” uma entidade coerente para investidores.
Implicação: a escolha do CEO é, na prática, uma peça de “equity story engineering”, preparar a unidade mais defensável para ser avaliada (ou transacionada) em melhores múltiplos.
3) O problema de base: crescimento orgânico fraco e desconto de mercado persistente
A Reuters é clara ao contextualizar a fragilidade histórica: anos de crescimento lento, declínio de vendas e erosão de preferência do consumidor por alimentos altamente processados. A empresa cortou em outubro objetivos anuais de vendas e lucros, numa dinâmica em que consumidores mais pressionados migram para marcas brancas mais baratas.
O mercado já “preçou” esta dificuldade:
- ações com perda de ~75% desde o pico de 2017 (97,77 USD);
- queda de ~30% desde que Abrams-Rivera assumiu em janeiro 2024;
- múltiplo P/E forward 9,73x, muito abaixo de pares globais de consumo.
Leitura estratégica: a cisão e o novo CEO são, em parte, uma tentativa de quebrar o círculo “baixo crescimento → desconto estrutural → menor margem para investimento”. Mas o desconto não desaparece apenas com engenharia corporativa; exige prova de tração comercial e capacidade de inovar sem perder escala.
4) Dimensão e assimetria entre as duas futuras empresas
O texto quantifica o ponto de partida das duas unidades:
- Sauces and spreads: cerca de 15,4 mil milhões USD de vendas em 2024
- Groceries/ready meals/processed foods: cerca de 10,4 mil milhões USD de vendas anuais
Esta assimetria é relevante por duas razões:
- a unidade de condimentos é maior e tende a ser percecionada como mais “defensiva” e com maior poder de marca;
- a unidade de mercearia/ready meals carrega mais diretamente o estigma de “processados” e poderá enfrentar mais pressão competitiva e de perceção.
Implicação: o desenho de liderança (Cahillane no “Taste Elevation”) sugere que o grupo está a priorizar a maximização do valor da unidade com maior probabilidade de re-rating, enquanto tenta reposicionar a unidade mais exposta à mudança de preferências.
5) Risco legal e reputacional: processo de San Francisco sobre ultraprocessados surge no pior timing
A 2 de dezembro, a cidade de San Francisco processou a Kraft Heinz, a Mondelez, a Coca-Cola e outras empresas, acusando-as de contribuírem para uma crise de saúde pública com produtos ultraprocessados, usando táticas comparáveis às da indústria do tabaco para desenhar e comercializar produtos “aditivos”. O processo invoca alegações de public nuisance e deceptive marketing.
O município procura:
- restituição e penalidades para compensar custos de saúde;
- uma ordem judicial que proíba marketing enganoso e obrigue a mudanças de práticas.
Há ainda um elemento estruturante: a própria definição de “ultraprocessados” é contestada por um trade group (Consumer Brands Association), que afirma não existir uma definição científica consensual, argumentando que classificar alimentos como “não saudáveis” apenas por serem processados pode induzir erro e agravar disparidades.
Leitura estratégica: mesmo que o risco jurídico final seja incerto, o risco reputacional e de agenda regulatória é imediato. E isso entra em choque com o objetivo da cisão: criar entidades com narrativas claras para investidores. Se a unidade “groceries” ficar mais associada à crítica pública sobre ultraprocessados, o “desconto” pode concentrar-se nela, dificultando re-rating e encarecendo capital.
Conclusão
A Kraft Heinz está a tentar reinventar-se com duas alavancas clássicas: reorganização estrutural (cisão em 2026) e mudança de liderança (Steve Cahillane a partir de 1 janeiro 2026). O objetivo é reduzir complexidade, melhorar foco e, sobretudo, recuperar crescimento orgânico suficiente para justificar uma compressão do desconto de mercado que hoje é evidente no múltiplo 9,73x P/E forward e na perda de valor acumulada desde 2017.
Mas o “timing” traz um obstáculo adicional: o processo de San Francisco sobre ultraprocessados coloca o setor, e o portefólio da empresa, num ciclo de escrutínio público que pode contaminar a narrativa de transformação, precisamente quando cada unidade precisará de um equity story simples e defensável.
Em 2026, a execução terá de ser dupla: (i) entregar a cisão sem fricção e com líderes credíveis para cada empresa, e (ii) provar que há espaço para crescimento e renovação de portefólio num contexto de pressão por saúde, preço e preferência do consumidor. Se a Kraft Heinz conseguir mostrar tração comercial e disciplina operacional, a cisão pode desbloquear valor; se o debate público sobre ultraprocessados ganhar escala e a inovação não compensar a erosão de procura, o risco é que a cisão apenas “separe” o desconto em vez de o eliminar.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre a Kraft Heinz, formato “News”, atualizado com informações até 16 de Dezembro de 2025. Categorias: Consumo. Tags: Acionista, Earnings, Kraft Heinz, Alimentação, EUA)