Wipro: bookings em mínimo de seis trimestres pressionam visibilidade; guidance fraco agrava desconto face a TCS e Infosys
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Wipro. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights
- A Wipro apontou para um 4T fiscal com receitas planas até +2% em cadeia (incluindo aquisições), abaixo do intervalo implícito em estimativas de mercado, reforçando a perceção de arranque fraco para 2026.
- Os deal bookings do 3T fiscal foram de 3,34 mil milhões USD, um mínimo de seis trimestres, descendo face aos 4,69 mil milhões USD do trimestre anterior.
- As receitas consolidadas subiram 5,54% para 235,56 mil milhões de rupias (c. 2,59 mil milhões USD), mas o lucro líquido caiu 7% para 31,19 mil milhões de rupias, penalizado por um encargo de 3 mil milhões de rupias ligado aos novos códigos laborais na Índia.
- O mercado reagiu com quedas acentuadas: as ADRs nos EUA chegaram a cair 7,2% após resultados, e a ação na Índia desceu até ~10% a 19 janeiro, a maior queda desde julho 2024.
- A divergência face aos pares ampliou-se: Morgan Stanley baixou a recomendação para “underweight” e reduziu o preço-alvo para 242 rupias (de 270), salientando risco de conversão mais lenta de contratos em receitas e menor visibilidade para o FY2027.
Nota de Contexto
A Wipro é a quarta maior exportadora indiana de serviços de TI, atuando sobretudo em outsourcing, serviços digitais e modernização tecnológica para clientes globais. O setor indiano é altamente sensível a ciclos de investimento corporativo nos EUA e na Europa e, nos últimos trimestres, tem oscilado entre cortes em despesa discricionária e uma reorientação para projetos de transformação baseada em IA. Importa notar que as empresas indianas de TI reportam tipicamente por trimestres fiscais (não civis); neste caso, a discussão centra-se no 3T fiscal (reportado em janeiro) e no guidance para o 4T fiscal subsequente. Num modelo de negócio assente em contratos, bookings e a sua conversão em receita são métricas-chave para antecipar crescimento e justificar múltiplos.
1) O “core issue”: menos negócios e pior conversão, num momento em que os pares seguram melhor o ciclo
O elemento que mais pesou no sentimento foi a combinação de:
- bookings fracos (mínimo de seis trimestres) e
- guidance do 4T fiscal abaixo do que o mercado esperava.
A Wipro reportou 3,34 mil milhões USD em bookings no 3T fiscal, abaixo dos 4,69 mil milhões USD do trimestre anterior e ligeiramente abaixo dos 3,5 mil milhões USD do mesmo período do ano anterior.
Num setor em que o crescimento é antecipado por carteira e ramp-ups, esta descida sugere ou (i) menor capacidade de ganhar contratos, ou (ii) maior prudência dos clientes em compromissos de grande escala, e, em ambos os casos, pior ponto de partida para acelerar receita.
A comparação com concorrentes agrava a leitura: TCS e Infosys apresentaram sinais mais resilientes (melhores receitas e wins), o que transforma um problema de ciclo (“toda a gente sofre”) num problema relativo (“a Wipro sofre mais”).
2) Guidance: flat a +2% em cadeia limita o “re-rating” e expõe risco de visibilidade
A empresa espera receitas do 4T fiscal planas até +2% em cadeia, incluindo aquisições.
A reação negativa do mercado sugere que o “street” estava posicionado para um patamar mais alto, e que a Wipro fica atrás na captura do impulso de projetos de IA que já se nota no setor.
Morgan Stanley foi explícito ao interpretar o outlook como sinal de:
- conversão mais lenta de contratos em receita;
- visibilidade de crescimento mais fraca rumo ao FY2027;
- potencial alargamento do gap de avaliação vs. TCS e Infosys.
3) Resultados do 3T fiscal: crescimento de vendas, mas lucro em queda e ruído de custos regulatórios
No 3T fiscal, a Wipro entregou um crescimento de vendas acima do consenso, mas não conseguiu proteger o resultado final:
- Vendas consolidadas: 235,56 mil milhões de rupias (+5,54%) vs. estimativa de 233,91 mil milhões.
- Lucro líquido: 31,19 mil milhões de rupias (-7%) vs. estimativa de 33,52 mil milhões.
- Encargo excecional: 3 mil milhões de rupias ligado aos novos códigos laborais.
Para além do item pontual, a leitura setorial é de pressão mais persistente:
- investimento em modelos de entrega suportados por IA,
- custos de compliance e
- salários em alta.
Isto cria um dilema clássico: investir para não ficar para trás no paradigma de IA, mas aceitar margem mais comprimida no curto prazo, o que, sem crescimento robusto de receitas, torna-se difícil de “vender” ao mercado.
4) Mercado e avaliação: desconto persiste e pode aumentar
A sessão de 19 janeiro cristalizou a frustração do mercado: as ações desceram até perto de 10%, com referência a um nível de 248,75 rupias (-6,7% a meio da manhã), liderando perdas no Nifty 50 e no índice de TI.
Apesar do desconto, o mercado não “comprou” o argumento de valor:
- P/E forward 12 meses da Wipro: 19,7x
- vs. 21,3x (TCS) e 22,5x (Infosys)
O ponto implícito é que o desconto existe por razões estruturais (crescimento e margem). Se o guidance continuar fraco e os bookings não recuperarem, o desconto pode deixar de ser “proteção” e passar a ser “sinal”: menor qualidade de execução.
5) Setor: sinais melhores para IA, mas Wipro parece captar menos a aceleração
O enquadramento setorial é menos negativo do que há alguns trimestres: após cortes em despesa discricionária, há maior predisposição para investir em projetos de transformação baseada em IA. O próprio CEO da Wipro referiu uma “mudança clara” para transformação liderada por IA.
Também houve sinais encorajadores noutros nomes (por exemplo, Tech Mahindra superou estimativas e apontou para melhoria de dinâmica em EUA e, depois, Europa).
Neste contexto, o problema da Wipro fica mais evidente: não basta o setor melhorar; é preciso converter essa melhoria em bookings e depois em receita reconhecida. A leitura de Jefferies (bookings mais fracos e atrasos em ramp-ups) aponta precisamente para o bloqueio na fase de execução.
Conclusão
A Wipro entrou em 2026 com um quadro de “dupla pressão”: menos negócios (bookings de 3,34 mil milhões USD, mínimo de seis trimestres) e crescimento guiado abaixo do esperado (receitas do 4T fiscal flat a +2%), num momento em que os principais pares mostram maior estabilidade.
O crescimento de vendas no 3T fiscal foi um sinal positivo, mas não chegou para compensar a queda do lucro e a mensagem de custos em subida (compliance, salários e investimento em IA). A reação do mercado, e o downgrade da Morgan Stanley para underweight com preço-alvo de 242 rupias, sugere que a discussão passou de “crescimento cíclico fraco” para “execução relativa fraca”.
Os próximos passos críticos serão a recuperação dos bookings e a aceleração dos ramp-ups: sem isso, o desconto de avaliação face a TCS e Infosys tende a persistir, e pode mesmo ampliar-se, se o mercado concluir que a Wipro está a investir em capacidades de IA sem conseguir transformar esse investimento em crescimento visível e sustentado.
Visite o Disclaimer para mais informações.
Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre os Earnings (Resultados) da Wipro, formato “News”, atualizado com informações até 15 de Fvereiro de 2026. Categorias: Consultoria e Outros. Classe de Ativos: Ações. Tags: Acionista, Índia, Software, Outsourcing, Tecnologia de Informação, Wipro)