Xiaomi acelera a transformação em “smartphone + EV”, mas enfrenta o duplo teste de capacidade e reputação
Aqui pode acompanhar as últimas informações relacionadas com a Xiaomi. Acompanhamos de forma contínua os desenvolvimentos mais relevantes que impactam esta empresa e consolidamos os pontos essenciais num formato que oferece uma visão clara, objetiva e alinhada com a nossa análise.
Strategic Highlights – 28 novembro 2025
- No 3.º trimestre de 2025 (terminado em 30 setembro), a Xiaomi registou receitas de 113,1 mil milhões CNY (+22,3%) e lucro líquido ajustado de 11,3 mil milhões CNY (+80,9%), embora abaixo do consenso de 116,5 mil milhões CNY.
- O bloco “EV, IA e novas iniciativas” já representa 25% das receitas totais e, no trimestre de setembro, passou a lucro operacional de 0,7 mil milhões CNY pela primeira vez.
- A pressão de custos em smartphones intensifica-se: a Xiaomi alertou que os preços ao consumidor poderão subir “de forma significativa” em 2026 devido ao aumento dos custos de chips de memória, mas admite que subidas de preço não chegam para absorver toda a pressão.
- No segmento EV, a empresa entregou 108.796 viaturas no trimestre de setembro e acelerou receitas EV para 28,3 mil milhões CNY (vs. 20,6 mil milhões no trimestre anterior), suportado pelo arranque do segundo modelo YU7.
- A ambição automóvel continua condicionada por execução e confiança: compradores do YU7 enfrentaram prazos de entrega de 38 a 60 semanas e a marca foi novamente exposta por um acidente fatal com um SU7 Ultra, que chegou a apagar até 9% da capitalização bolsista intradiária.
Nota de Contexto
A Xiaomi é um dos maiores fabricantes globais de smartphones, com um ecossistema de eletrónica de consumo e, desde 2024, uma aposta declarada em veículos elétricos (EV) como segundo motor de crescimento. A estratégia assenta na integração de hardware, software e serviços, tentando transformar o “smartphone” num centro de controlo de um portefólio mais amplo, onde o automóvel se torna o produto de maior ticket e potencial de margem, mas também o que traz maior risco reputacional, regulatório e de execução.
1) Trajetória financeira: crescimento de receitas e lucros, com “novas iniciativas” a ganhar peso
Os números divulgados no 3.º trimestre de 2025 mostram uma Xiaomi a acelerar o crescimento, com 113,1 mil milhões CNY de receitas (+22,3%) e 11,3 mil milhões CNY de lucro líquido ajustado (+80,9%). Ainda assim, o top line ficou abaixo do consenso indicado (média de 116,5 mil milhões CNY).
O que muda qualitativamente é a composição: EV, IA e “outras novas iniciativas” já correspondem a 25% das receitas e, no trimestre de setembro, esse bloco atingiu lucro operacional de 0,7 mil milhões CNY pela primeira vez, um marco relevante porque sugere que a expansão para EV já não é apenas “crescimento com perdas”, começando a aproximar-se de um modelo economicamente sustentável.
No 2.º trimestre de 2025 (terminado em 30 junho), a empresa tinha reportado 116 mil milhões CNY de receitas (+30,5%) e 10,8 mil milhões CNY de lucro líquido ajustado (+75,4%), superando estimativas (média de 114,7 mil milhões CNY).
A combinação destes dois trimestres sugere um ciclo de crescimento robusto, mas com volatilidade relativa no “beat/miss” face a expectativas, um padrão típico quando a empresa está a misturar negócios maduros (smartphones) com negócios em rampa (EV).
2) Smartphones: volumes estáveis, pressão de preços e risco de erosão de proposta de valor
A Xiaomi mantém escala global em smartphones, mas o quadro operacional está a ficar mais difícil por um motivo externo: chips de memória. Em 24 outubro 2025, o presidente Lu Weibing reconheceu que a pressão de custos “transferiu-se para o pricing” de novos produtos e alertou que os aumentos de custos “estão muito para além do esperado” e podem intensificar-se.
O episódio do Redmi K90 ilustra a tensão entre custo e perceção de valor:
- Modelo base K90 (12GB/256GB): 2.599 CNY, vs. 2.499 CNY no K80 (novembro 2024).
- Para responder a fricção dos consumidores, a Xiaomi anunciou um ajuste promocional: redução de 300 CNY no modelo (12GB/512GB) para 2.899 CNY durante o primeiro mês.
Em 18 novembro 2025, a mensagem tornou-se ainda mais explícita: a empresa avisou que os consumidores poderão ver “uma subida considerável” dos preços de smartphones no próximo ano e que “subidas de preço, por si só, não serão suficientes” para absorver o aumento de custos.
Do ponto de vista comercial, os dados do 3.º trimestre mostram envios globais de 43,3 milhões de unidades (+0,5%), mantendo a Xiaomi como n.º 3 mundial com 13,6% de quota (Omdia, citada pela empresa).
No 2.º trimestre, a Xiaomi reportou 42,4 milhões de unidades (+0,6%) e quota global de 14,7% (Canalys, citada), mas com receitas de smartphones -2,1% para 45,5 mil milhões CNY, atribuídas a menor preço médio.
Leitura estratégica: a Xiaomi parece presa entre dois vetores: (i) manter escala e quota num mercado de crescimento baixo e (ii) defender margens num ciclo de custos em alta. O risco de 2026 é a empresa ter de escolher entre proteger margens (subindo preços) ou defender volumes (aceitando compressão).
3) EVs: crescimento rápido, mas a execução é o “gargalo” (capacidade, prazos, experiência do cliente)
O negócio de EV é o grande motor narrativo e, cada vez mais, material nos números. No 2.º trimestre, o segmento EV gerou 20,6 mil milhões CNY de receitas (vs. 18,1 mil milhões no 1.º trimestre) e entregou 81.302 veículos; no agregado “EV + IA + novas iniciativas”, o prejuízo líquido foi de 0,3 mil milhões CNY, melhorando face a 0,5 mil milhões no trimestre anterior. A empresa reconheceu que o investimento acumulado em I&D ultrapassa 30 mil milhões CNY, o que ajuda a explicar porque “as perdas acumuladas ainda são significativas”.
No 3.º trimestre, a aceleração é clara:
- Receitas EV: 28,3 mil milhões CNY (vs. 20,6 mil milhões no trimestre anterior e 18,1 mil milhões no 1.º trimestre).
- Entregas: 108.796 EV no trimestre (vs. 81.300 no trimestre anterior), já com impacto do YU7 após lançamento em junho.
- O bloco “EV/IA/novas iniciativas” atinge lucro operacional de 0,7 mil milhões CNY pela primeira vez.
Ao mesmo tempo, as notícias de julho mostram o lado “frágil” de um crescimento assente em procura superior à oferta. Após o lançamento do YU7, a Xiaomi reportou cerca de 240.000 encomendas nas primeiras 18 horas, mas com poucos veículos disponíveis para entrega imediata; na app, compradores viam prazos de 38 a 60 semanas.
Houve ainda um elemento comercial sensível: o depósito para encomenda era não reembolsável de 5.000 CNY, e mais de 400 compradores terão apresentado queixas na plataforma Black Cat alegando falta de transparência sobre prazos e pedindo reembolso.
A Xiaomi está a tentar responder com rampa de capacidade: a produção mensal no complexo de Pequim terá subido para 28.000 unidades em maio (vs. 4.000 no março anterior) e a empresa planeia novas fábricas em terrenos próximos.
Leitura estratégica: a marca está a viver o paradoxo clássico de “produto vencedor”: procura forte valida a estratégia, mas prazos longos e gestão de expectativas podem transformar entusiasmo em fricção, precisamente quando a empresa precisa de construir confiança para evoluir de “novidade” para “marca automóvel”.
4) Reputação e risco regulatório: acidentes, segurança e o custo de ser “smartphone sobre rodas”
A transição para automóvel aumenta o risco reputacional porque a fasquia de segurança é incomparável à eletrónica de consumo. Em 14 outubro 2025, a Reuters destacou que um acidente fatal envolvendo um Xiaomi SU7 Ultra chegou a apagar até 9% da capitalização bolsista intradiária antes de recuperar parcialmente; o texto refere ser o segundo acidente mortal de alta visibilidade no ano.
O episódio levantou receios em torno do sistema eletrónico das portas, com imagens a sugerirem dificuldades em aceder ao condutor, uma questão particularmente tóxica para uma marca que se vende pela integração tecnológica.
Ao mesmo tempo, o contexto regulatório na China tende a ficar mais exigente, e a análise sublinha que a credibilidade de segurança terá impacto direto em decisões de compra, sobretudo se a Xiaomi quiser competir fora de casa, onde a tolerância a dúvidas de qualidade e segurança é menor.
Leitura estratégica: para um novo fabricante, a reputação não é um “atributo”; é um ativo financeiro. A cada incidente, aumenta o custo implícito de aquisição de cliente, cresce o risco de escrutínio regulatório e torna-se mais difícil sustentar pricing e expansão internacional.
5) Internacionalização dos EV: ambição explícita, mas adiada para depois de 2027
Em 2 julho 2025, o CEO Lei Jun foi claro: a Xiaomi só considerará vender carros fora da China a partir de 2027, porque precisa de se concentrar no mercado doméstico dada a força das encomendas para SU7 e YU7.
A mesma peça volta a evidenciar o “stress de execução”: o CEO reconhece procura elevada e promete aumentar capacidade, mas “sem dar pistas” sobre o ritmo efetivo da rampa.
Leitura estratégica: o adiamento para 2027 funciona como disciplina (foco no core) e como mitigação de risco (evitar expansão enquanto a base operacional ainda não está estabilizada). Porém, também significa que qualquer narrativa de “crescimento global” do EV permanece, por agora, mais aspiracional do que operacional.
Conclusão
A Xiaomi está a construir um segundo pilar de crescimento com EVs e os números mostram progresso real: receitas EV sobem de 20,6 mil milhões CNY (2T) para 28,3 mil milhões CNY (3T), entregas sobem para 108.796 e o bloco “EV/IA/novas iniciativas” atinge lucro operacional de 0,7 mil milhões CNY.
Mas a empresa entra agora na fase mais exigente do ciclo: transformar procura em experiência consistente, reduzindo prazos (que chegaram a 38–60 semanas no YU7) e protegendo reputação num setor onde acidentes e dúvidas de segurança têm impacto imediato em confiança e valuation.
Em paralelo, o negócio de smartphones enfrenta um choque de custos nos chips de memória, com a empresa a preparar o mercado para subidas de preços em 2026, admitindo que isso, por si só, não resolve o problema.
O “equity story” de 2026–2027 dependerá, assim, menos de prova de conceito (que já existe) e mais de execução: capacidade, transparência comercial, segurança e controlo de margem.
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Os valores encontram-se em sistema métrico europeu.
(Artigo sobre os Earnings (Resultados) da Xiaomi, formato “News”, atualizado com informações até 28 de Novembro de 2025. Categoria: Consumo. Classe de Ativos: Ações. Tags: Acionista, China, Xiaomi, Consumo, Smartphones, Veículos Elétricos)